Pilsen bebida na fonte

Os nomes dos bares são impronunciáveis, mas basta pedir pilsen ou dark lager que o garçom entende na hora: cerveja é o segundo idioma mais falado na República Checa, que há séculos vem dando aulas de fermentação

Roberto Fonseca, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2010 | 02h57

Ele é o estilo de cerveja mais consumido no mundo. Por aqui, é também o mais popular - ainda que, hoje, muitos o associem a uma cerveja de gosto duvidoso. E, por ironia do destino, apesar de ter nascido na República Checa, para rivalizar com as pales ales inglesas, foi criação do alemão Josef Groll, contratado pela cidade de Pilsen para produzir uma bebida diferente das cervejas castanho-escuras que existiam até então.

A primeira leva de cerveja pilsen chegou aos copos dos checos em novembro de 1842. Foi uma surpresa, principalmente ao ser servida em taças translúcidas de cristal da Boêmia: uma cerveja dourada, fermentada em baixas temperaturas, com aroma de malte e de lúpulo. Ganhou o nome de Plzenský Prazdroj, em alemão Pilsner Urquell, ou "pilsen da fonte original". A marca, hoje controlada pelo grupo sul-africano SAB/Miller, ainda é sinônimo do estilo no mundo, embora tenha perdido parte de seu amargor.

Ainda na "onda" da pilsen, outra cidade que se tornou famosa pela produção cervejeira no país foi Ceské Budejovice, "lar" da Budweiser - que não é a que você provavelmente imagina. Há mais de um século, os fabricantes da marca travam duelo com os donos da cerveja norte-americana homônima pela patente. No Brasil, ela chega como Czechvar.

Outro estilo tradicional na República Checa é o das dark lagers - lá, tmavy lezák -, cervejas de baixa fermentação, escuras, marcadas por notas de malte caramelo e toffee e doçura residual. A mais famosa de todas é produzida pelo U Fleku, restaurante e cervejaria que abriu em 1499 - antes da descoberta do Brasil.

O escritor Ronaldo Morado, autor da Larousse da Cerveja, escreveu que os anos de comunismo na República Checa tiveram boas e más influências na produção cervejeira. Com o isolamento de boa parte do mundo, pouca coisa mudou nos métodos tradicionais de produção e receitas, em uma época em que lagers industriais, produzidas em massa e com cada vez menos personalidade, ganhavam força. Por outro lado, a falta de atualização tecnológica deixou as cervejarias em condições precárias no fim do regime comunista e com distribuição praticamente nula fora do país.

Na hoje turística Praga é quase impossível não encontrar um bar que tenha o logotipo da Pilsner Urquell na fachada - a marca domina o mercado e é a "cerveja de trabalho" dos checos. Eles, contudo, evitam os bares turísticos, onde uma taça da Urquell pode custar até 90 coroas (cerca de 4), preço inimaginável para a renda média do país. Mesmo assim, paradas indispensáveis são o U Pinkasú, primeiro lugar a servir a Urquell em Praga, em 1843, e o U Zlateho Tygra, um dos mais antigos da cidade.

Além da tradição, há grupos de microcervejarias e produtores maiores buscando inovações. Marca disponível no Brasil, a Primator produz estilos que fogem do "pilsen/dark lager", como Stout e Weissbier. É nas micros, porém, que estão as melhores surpresas, caso da Strahov e sua linha de cervejas Svaty Norbert, que inclui uma índia pale ale de influência inglesa e uma pilsen capaz de rivalizar com a Urquell.

Outra produção reconhecida é a Koutský, com quatro de suas receitas entre as dez mais bem cotadas no país no site de avaliação cervejeira www.ratebeer.com.

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