Alex Yallop/Greenpeace
Alex Yallop/Greenpeace

Pirata, eu?!

Até Putin admite que os russos exageraram na abordagem. Brasileira do Greenpeace não vai marchar na prancha, mas pode pegar 15 anos

Juliana Sayuri, O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2013 | 15h52

"Piratas" abalaram o Kremlin. Poderia passar por história de pescador do presidente Vladimir Putin - que, no melhor estilo James Bond, só nos últimos tempos fisgou um lúcio de 21 kg na Sibéria, embarcou num submarino para ver restos de uma fragata do século 19 na Finlândia e mandou prender três garotas de balaclavas coloridas de um tal Pussy Riot na Catedral de Moscou, entre outras peripécias. Passaria, não fosse o imbróglio diplomático nessa nova desventura: dois jornalistas e 28 ativistas do Greenpeace, de 18 nacionalidades diferentes, estão sendo acusados de pirataria marítima pela promotoria russa e correm o risco de passar até 15 anos na prisão. Entre eles, a bióloga brasileira Ana Paula Alminhana Maciel.

Gaúcha de Porto Alegre, Ana Paula era uma das tripulantes do Arctic Sunrise, que rondava a Prirazlomnaya, plataforma da petroleira Gazprom no Mar Pechora, na costa russa. De bandeira holandesa, simbólicos arco-íris e pomba branca ilustrados na proa paz e amor, o navio do Greenpeace foi construído em 1975 sob o selo AS Vaagen Verft. O quebra-gelo zarpou do porto de Amsterdã e, desde 1995, já se aventurou por Atlântico e Ártico em muitas expedições. Foi a primeira embarcação a navegar nos arredores da Ilha James Ross, na Antártica, e cruzou Congo, Argentina e Amazônia - onde se daria a estreia de Ana como marinheira, em 2006.

Mas à popa: na manhã de 18 de setembro, a nau ecofriendly espreitava a Prirazlomnaya, a fim de documentar o que fazia a gigante russa por lá. Para ambientalistas do Greenpeace, o Ártico pode se tornar palco de uma catástrofe ecológica iminente, pois, para perfurar poços, as companhias precisariam tirar icebergs do caminho e derreter gelo flutuante - e um vazamento de petróleo poderia comprometer o frágil ecossistema do Polo Norte. Assim, a ideia era escalar a estrutura da Gazprom e ali fincar uma bandeira do Greenpeace como protesto, querendo impedir a primeira perfuração em busca de petróleo offshore no gélido Ártico.

A ideia naufragou: os russos, ressabiados, estavam à espera, prontos para esguichar jatos d’água contra os manifestantes escaladores - a finlandesa Sini Saarela e o suíço Marco Webber. Logo depois vieram barcos com guardas russos, munidos com palavras severas, máscaras negras e armas mirando os dois ativistas, que acabaram presos. Do Arctic Sunrise, a tripulação ainda contou 11 tiros disparados como alerta pela guarda costeira. No dia seguinte, o navio foi ocupado e rebocado para o porto de Murmansk. Todos os tripulantes foram presos, incluindo o jornalista britânico Kieron Bryan e o fotógrafo russo Denis Sinyakov.

Ana foi a primeira ativista acusada oficialmente de pirataria e enquadrada no artigo 227 russo, no dia 2. Desde então pipocaram manifestações de apoio aos ativistas mundo afora, incluindo do WWF e da Anistia Internacional, com a hashtag #FreeTheArctic30. Atrás das grades em Murmansk por mais dois meses, enquanto espera julgamento, Ana se tornou um dos principais rostos da campanha. Rosto, aliás, jovial e delicado - olhos azuis, cachos originalmente ruivos, mas já quase loiros, pele clara marcada por pequenas sardas. Mas a delicadeza não condiz muito com a job description. Marinheira de convés, a bióloga de 31 anos manobra as amarras de bordo, limpa o deck, lixa as superfícies metálicas, tira ferrugem, ajuda no embarque e desembarque de cargas - o trabalho "sujo" e pesado mesmo. "É uma aventureira", diz Rosângela Alminhana, orgulhosa da caçula. "Mas das boas: Ana se interessa por questões ambientais desde adolescente. Tem personalidade forte. Ser ativista no Greenpeace é o trabalho perfeito para ela."

Formada pela Universidade Luterana do Brasil, em Canoas (RS), Ana entrou como voluntária no Greenpeace de Porto Alegre em 2006. Sorte: o Arctic Sunrise abriu embarque para voluntários para uma expedição à Amazônia. Ana conquistou a última vaga na tripulação graças à desistência de uma estudante universitária na última hora. Revés: foi detida pela primeira vez em Santarém (PA) durante uma manifestação da ONG contra o desmatamento provocado pela indústria da soja. Sorte: depois dessa expedição, o capitão dinamarquês Arne Sorensen convidou a gaúcha para integrar novamente a tripulação do navio. Revés: Ana foi detida e deportada da Ilha de São Cristóvão e Névis, no Caribe, onde participava de um protesto contra a caça de baleias. Já calejada entre boas e más marés, a ativista se acostumou a passar três meses em alto-mar, três meses em casa. Lembrada por amigos como uma ativista bem-humorada, dedicada e versátil, Ana é atualmente a única brasileira presente nas embarcações da ONG.

A bordo, a gaúcha se apaixonou por um italiano, também ativista do Greenpeace, com quem foi casada por quase quatro anos. Nas temporadas em terra firme, eles moraram numa casinha no Vale de Prazeres, em Portugal. Agora, a marinheira espera voltar para casa em Porto Alegre.

Ana já fez três expedições ao Ártico - em 2010, 2012 e 2013. Nessa derradeira, a inédita prisão russa - "a ameaça mais séria para o ativismo pacífico desde o bombardeio do Rainbow Warrior", nas palavras de Kumi Naidoo, diretor do Greenpeace Internacional. Naidoo se referia à morte do fotógrafo luso-holandês Fernando Pereira no naufrágio provocado pelo serviço secreto francês durante missão na Nova Zelândia, em 1985. Presente nos dois momentos, o americano Peter Willcox era capitão do Rainbow Warrior à época e estava agora no comando do Arctic Sunrise. "Não nos intimidaremos", disse Naidoo no estilo Willcox.

"É absolutamente evidente que eles não são piratas, mas... violaram a lei internacional", ponderou Putin. Engaiolados, os 30 réus contam com o apoio de 18 diplomatas de nove nacionalidades. À imprensa, Ana não disse uma palavra. Antes de dar seu depoimento no tribunal, simplesmente mostrou uma anotação rabiscada num livro: "Salve o Ártico". Era, afinal, o recado.

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