Pistas para tentar decifrar o enigma nuclear iraniano

O que está havendo de fato na questão do Irã? Embora seja difícil saber exatamente em quem acreditar, podemos tentar ligar as diversas informações divulgadas recentemente e formular várias hipóteses.

Mark Medish, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

26 de outubro de 2009 | 00h00

1) A jogada de Pittsburgh - As declarações do presidente Barack Obama na recente cúpula do G20 aumentaram a sensação de perigo depois da revelação de uma nova usina iraniana para enriquecimento de urânio em Qom e, em seguida, com o pedido de imposição de sanções mais rigorosas caso o Irã não cumpra suas obrigações previstas no Tratado de Não-Proliferação (TNP).

Foi uma mudança retórica para Obama, que tentara conseguir um envolvimento incondicional. A questão real é saber se não foi uma manobra meramente tática destinada a aumentar a pressão, ou se Obama tem de fato um plano de jogo mais amplo.

2) Qom - Os iranianos apressaram-se a informar à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que de fato alguma coisa estava acontecendo em Qom. A maioria dos especialistas suspeita que o local foi projetado inicialmente para o lançamento de foguetes e estaria sendo convertido em uma "instalação de enriquecimento de reserva", caso Natanz e outros locais do programa nuclear sejam atingidos. É bastante provável que não haja material físsil em Qom. Os EUA declaram que têm conhecimento de Qom desde 2007. Entretanto, ainda não surgiu uma explicação satisfatória do motivo pelo qual a existência de Qom foi revelada só agora pelos iranianos e por Obama.

3) As conversações de Genebra e Viena - As conversações do Irã com o chamado P5+1 (os cinco membros permanente do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha) foram produtivas, pelo menos superficialmente. Teerã prometeu permitir as visitas dos inspetores à instalação de Qom, e enviar uma quantidade substancial de urânio de baixo enriquecimento (UBE) para Rússia e França a fim de que seja processado. Estas medidas poderão representar algum progresso, conferindo à estratégia de envolvimento de Obama uma ideia de sucesso inicial. Uma interpretação mais cética é de que o regime iraniano se limitou a fazer o mínimo para ganhar tempo.

4) O cientista nuclear desaparecido - O desaparecimento, há três meses, do maior especialista iraniano em energia nuclear, Shahran Amiri - coincidindo com a repressão de junho, e antes da revelação de Qom - é interessante, tendo em vista a informação de que o Irã tem uma quantidade cada vez menor de UBE, além disso cheio de impurezas que poderiam causar o colapso da centrífuga. Não se sabe ao certo se o cientista foi sequestrado ou se desertou.

Os críticos das conversações de Genebra observaram imediatamente que estes problemas técnicos podem explicar o motivo pelo qual Teerã agora está ansiosa por transferir o UBE para a Rússia em troca de novo combustível. Por outro lado, este quadro contraria a ideia de que a usina de Qom revela uma ameaça nuclear mais iminente.

5) A postura indecisa de Moscou - A secretária de Estado, Hillary Clinton, viajou para Moscou, na semana passada. Um dos assuntos abordados foi o Irã. O Kremlin pode não concluir um acordo com os aiatolás, mas pode reduzir suas opções. O presidente Dmitri Medvedev elogiou as conversações de Genebra-Viena e observou que as "sanções não são adequadas, neste momento".

Ao frisar "neste momento", Medvedev usou uma linguagem nova. Com certeza Teerã notou a nuance. Muito provavelmente, os russos disseram a Hillary que pressionarão Teerã para que cumpra seus novos compromissos na questão do TNP.

Como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e um dos arquitetos do TNP, Moscou prefere um Irã sem armas nucleares. Mas ao mesmo tempo, talvez prefira o status quo - o Irã isolado com ambições nucleares que irrita o Ocidente - a uma distensão ou uma aproximação iraniana.

Entretanto, com certeza Moscou aceitaria esta última hipótese se permitisse evitar um ataque militar dos EUA ou de Israel, capaz de desestabilizar a região. Daí, uma cooperação maior, mas sem muito entusiasmo, da Rússia com o Ocidente.

6) Um fim do jogo difícil - Como no caso do Afeganistão, novos paradigmas começaram a surgir em relação ao Irã. As opções teóricas são três: um ataque preventivo; concordância e dissuasão; ou um esquema negociado.

A primeira é basicamente insustentável, quando não inviável. A segunda é viável, mas indesejável. A última é a mais funcional.A teoria mais encorajadora é que os iranianos não estão na realidade tão perto de testar sua capacidade nuclear e, além disso, sua estratégia é permanecer mais ou menos nesta posição.

Deste ponto de vista, talvez Teerã pretenda desenvolver toda a infraestrutura necessária, continuando "a 18 meses" dos testes. Evitar os testes é crucial - foi neste ponto que a não-proliferação falhou no caso da Índia e do Paquistão.

Se Teerã estiver interessada na "opção do Japão", como às vezes é chamada - mantendo a capacidade de produzir uma arma nuclear sem aviso prévio, mas não de testá-la -, esta poderá ser uma oportunidade razoável para um esquema negociado de inspeções, vigilância e alarme antecipado. O Irã teria de ratificar o Tratado de Proibição Abrangente de Testes.

Em decorrência de graves divisões internas, os iranianos talvez não tenham a confiança necessária para seguir nesta direção.

7) O curinga israelense - Se a confiança entre EUA e Israel é quase zero, a confiança entre Israel e Irã é menos zero.

O que mais preocupa é que alguns israelenses estão chamando Obama de fraco, implicando que já não confiam nos EUA na questão do Irã. Atualmente circula um novo boato segundo o qual Israel pretenderia atacar o Irã dentro em breve.

Talvez Israel possa começar uma guerra contra o Irã, duvidoso é que consiga terminá-la. Mesmo que um ataque cirúrgico fosse viável, quase certamente levaria a uma resposta assimétrica e a uma guerra mais ampla no Oriente Médio.

Entretanto, se a hipótese do ataque não funciona, por que os israelenses continuam alimentando este tipo de boato? Talvez a boataria seja a parte mais importante de sua estratégia. Antes dos seus ataques preventivos anteriores, contra pontos iraquianos e sírios, Israel não se manifestou.

Mark Medish, pesquisador visitante da Carnegie Endowment for International Peace, foi membro do governo Clinton

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