Plantão médico

Aluna do 5.º ano de Medicina da USP, Thais Pereira, de 25 anos, teve de revelar a uma paciente que ela tinha câncer. "Eu chorei muito, mas depois pensei que estou aqui para ajudar e não para sofrer", conta.

Felipe Mortara, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2011 | 00h00

Para Otávio Ribeiro, de 24, aluno do último ano do curso, o maior desafio foi trabalhar numa enfermaria para crianças com aids. "Lidar com esses sentimentos é o tipo de coisa que não se aprende na aula."

Ser médico é bem mais difícil do que dominar os aspectos técnicos da profissão. Mas não precisa ser tão complicado quanto mostram algumas séries de TV, nas quais os dramas dos doutores parecem insolúveis. A rotina do estudante pode ficar bem mais leve, se ele contar com o apoio de professores e colegas.

Foi pensando nisso que a Faculdade de Medicina da USP criou o projeto Tutores, em 2001. O programa promove encontros mensais de professores mentores e pequenos grupos de alunos para refletir sobre a profissão e a vida de médico.

Todos os anos, os 180 calouros são sorteados e entram em um dos 80 grupos de 12 a 14 estudantes já existentes. Os membros do grupo, assim como o tutor, permanecem os mesmos até o fim da graduação. Mesmo sendo uma atividade voluntária, o Tutores reúne em média de 30% a 50% dos 1.080 alunos da faculdade. Há quem frequente os encontros sempre, outros que vão às vezes - e quem nunca participou.

Nas reuniões, de duas horas, os futuros doutores podem falar sobre qualquer coisa. Da ética médica ao relacionamento com pacientes, colegas, chefes, professores e com o próprio hospital. Há lugar também para assuntos corriqueiros, como o melhor ônibus a tomar quando é preciso ir à Cidade Universitária ou como lidar com aquele professor mais polêmico.

"O que se busca trabalhar aqui é a construção da identidade como futuro médico por meio de um mentor", afirma Patrícia Bellodi, coordenadora técnica da iniciativa.

Para a professora-tutora Ivete Prado, o encontro é um momento de reflexão sobre as relações de poder na instituição. "Se há algo com o qual o estudante não concorda, ele precisa aprender como agir, conhecer seus direitos", diz. Temas polêmicos como aborto e eutanásia aparecem com frequência na sala. "Trabalhar a questão da responsabilidade e como cada um lida com a morte é muito importante."

"Uma vez a gente discutia o que é "ser ético". Ivete contou do conselho de um professor. Segundo ele, para saber se um procedimento é ético, basta se perguntar: "Eu faria isso com a minha mãe?"", diz Fernando Silva, de 21, do 4.º ano. "Aqui resolvo muitas dúvidas existenciais. Se ficasse remoendo em casa, entraria em depressão."

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