Plantas aquáticas criam ''gramado'' na Guarapiranga

Fenômeno é resultado de excesso de fósforo e nitrogênio contidos no esgoto despejado na represa, que abastece 4 milhões de pessoas

Andrea Vialli e Afra Balazina, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2010 | 00h00

Vista do alto, a Represa do Guarapiranga, em alguns pontos, se assemelha a um campo de futebol. Embarcações parecem encalhadas no meio de plantas aquáticas e algas que se acumulam sobre as águas, que abastecem quase 4 milhões de pessoas. Hoje, ao meio-dia, ONGs realizam um "abraço" em volta da represa, para sensibilizar população e poder público sobre a situação do manancial.

O crescimento das plantas aquáticas é resultado do excesso de nutrientes, como fósforo e nitrogênio, na água. E vêm em grande parte do esgoto despejado in natura na represa.

A reportagem obteve com exclusividade dados do monitoramento da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) da qualidade da represa no ano passado. A concentração média de fósforo em 2009 foi de 0,055 miligramas/litro - praticamente a mesma da média no período 2004-2009 (0,053 miligramas/litro). A concentração, no entanto, está duas vezes e meia acima do padrão de qualidade.

Segundo Nelson Menegon Júnior, gerente da divisão de Águas e Solos da Cetesb, biólogos identificaram nos últimos dias a presença das plantas aquáticas silvínia e alface d"água na Guarapiranga. No sobrevoo feito na manhã de sexta-feira pela reportagem, as "ilhas" de plantas ocupavam áreas amplas no meio da represa. Segundo Menegon, as plantas causam problemas como o entupimento dos coletores de água da Sabesp, mas não trazem prejuízos à qualidade da água para abastecimento. "As algas são mais preocupantes, pois podem ser tóxicas e também deixar a água com cheiro de barro."

No entorno da Guarapiranga vivem hoje quase 1 milhão de pessoas. A ocupação irregular das margens da represa, que ocorreu fortemente na década de 1970, persiste e é responsável pela maior parte do esgoto que chega às suas águas. Outra parte vem de um canal da Represa Billings que deságua na Guarapiranga, trazendo consigo águas do poluidíssimo Rio Pinheiros.

"A ocupação irregular da Guarapiranga é denunciada há anos. Mas ver a represa nessa situação me faz pensar se as ações do poder público para revitalizar a represa estão sendo suficientes", diz Marcelo Cardoso, coordenador executivo da ONG Vitae Civilis. "A represa teve um problema grave de crescimento de algas na década de 1980 e parece que pouco mudou desde então", diz.

Retirada. Até 2015, serão investidos R$ 1,3 bilhão no programa Vida Nova/Mananciais, que prevê a retirada de famílias que hoje moram em áreas ocupadas irregularmente no entorno da represa, urbanização de favelas e obras de coleta e tratamento de esgotos. O programa tem recursos da Prefeitura de São Paulo, do governo estadual, do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Banco Mundial.

Segundo Amauri Pollachi, coordenador do programa, os investimentos já começaram a surtir efeito nos altíssimos custos de tratamento de água do Sistema Guarapiranga, que chegam a ser três vezes mais elevados do que no Sistema Cantareira, que abastece as regiões norte e central de São Paulo e cujas águas vêm de áreas mais preservadas. "Já foi possível reduzir expressivamente a quantidade de produtos químicos usados para tratar a água da Guarapiranga", diz Pollachi. A redução foi da ordem de 30%, segundo a Sabesp.

Pollachi observa que até 2015, ano em que expiram os investimentos no programa, os problemas da Guarapiranga estarão sanados. "Vamos voltar aos níveis de carga orgânica na água de 30 anos atrás, com o dobro da população vivendo no entorno."

De acordo com a Subprefeitura M"Boi Mirim, este ano foram realizadas 298 demolições de construções em áreas de proteção ambiental. Até o final do ano há uma estimativa de 2.750 famílias sejam atendidas com moradias fora da área da represa.

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