Odebrecht/Divulgação
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Ajuda a uma ilha embargada é boa oportunidade para que se preste atenção à ascensão do Brasil na economia global

Mauricio Font é economista e diretor do Bildner Center for Western Hemisphere Studies, em Nova York,

08 de fevereiro de 2012 | 16h40

Afirmar que a viagem de Dilma Rousseff a Cuba representa a tentativa mais drástica do Brasil de usar o poderio econômico recentemente conquistado seria exagero. Afinal, nos últimos anos o gigante sul-americano expandiu as relações com a Ásia, investiu na África para combater a pobreza, patrocinou a integração regional na América do Sul e se prepara para sediar a próxima Copa e a Olimpíada. No entanto, a iniciativa da viagem a Cuba é uma expressão promissora e digna de destaque da posição assertiva do Brasil no plano regional.

A visita da presidente Dilma adquire significado especial no processo de reforma que se seguiu à ascensão de Raúl Castro à presidência. Cuba empreende uma série de mudanças políticas e institucionais num movimento gradual cujo escopo é promover cidadãos privados a atores econômicos. Até agora, o aprimoramento do modelo atual é tímido e incerto para que possa ser chamado de transição, mas é real. A incapacidade do setor público de financiar e administrar os investimentos necessários e de implementar uma nova estratégia econômica exigirá novas alianças e maior expansão nos próximos anos. O que tem o Brasil para oferecer à sociedade cubana a esse respeito?

Há três importantes iniciativas: a ampla modernização do Porto de Mariel, a abertura de créditos destinados à expansão do comércio e o apoio ao setor açucareiro e agrícola cubano. Esta última iniciativa não deixa de ser irônica. Há apenas algumas décadas, Cuba era um dos principais produtores de cana-de-açúcar. Uma série de decisões precipitadas levou a um declínio histórico do setor açucareiro cubano, oferecendo uma oportunidade ao Brasil de se destacar como líder nesse campo. Depois dos anos 70, o etanol impulsionou a ascensão do moderno setor açucareiro brasileiro. O espírito empreendedor no Estado de São Paulo foi responsável pela implantação da indústria do etanol extraído da cana-de-açúcar e, na realidade, pela expansão da agricultura brasileira em geral. O vigor internacional do Brasil baseia-se no modelo ou na parceria entre esse dinâmico setor empreendedor e instituições públicas como o BNDES. Empresas privadas como a Odebrecht destacam-se nesse sentido. Indubitavelmente, o Brasil poderá ter uma atuação maior oferecendo assessoria ao Estado para que promova e colabore com empreendedores privados numa efetiva associação Público-Privada.

Para os políticos brasileiros, a possibilidade de participar das reformas econômicas de Cuba encontra compensação na persistente simpatia pelas causas defendidas pela esquerda e em demonstrar sua capacidade de divergir da política oficial dos EUA. A insistência americana num embargo ineficiente, contraproducente e impopular oferece ao Brasil e a outros países a oportunidade de desenvolver mais facilmente relações profícuas com Cuba. A ajuda à combalida economia cubana é um convite para que o mundo preste atenção à ascensão independente do Brasil na economia global. Ao mesmo tempo, a Venezuela fornece grande parte do petróleo e seus derivados consumidos pelos cubanos, em troca de serviços no campo da medicina, por exemplo.

Cuba tem uma necessidade crucial de recursos financeiros externos. Os esforços para dar uma nova vida à sua deteriorada economia ainda são recentes e limitados para representarem um marco histórico. Os preços dos produtos agrícolas aumentaram 20% no ano passado. É cada vez mais comum obter produtos de consumo numa moeda conversível (CUC), cujo valor é mais de 20 vezes o do peso cubano padrão. A maioria dos cubanos não tem acesso a quantias satisfatórias de CUCs e depende de subsídios. Enquanto espera uma recuperação mais efetiva da produção agrícola, as remessas e o acesso a moedas fortes (gorjetas e coisas parecidas) no setor de turismo tornaram-se indispensáveis. O Brasil poderá influir definitivamente financiando o desenvolvimento na ilha por meio de processos econômicos eficientes.

E quanto à democracia e aos direitos humanos?

O governo Dilma Rousseff seria impensável sem o processo de democratização que a sociedade brasileira viveu depois da abertura dos anos 70. O autoritarismo militar implantado desde 1964 começou a abrandar na primeira parte da década, mas não antes que a própria presidente brasileira experimentasse a prisão e a tortura, e intelectuais e militantes democratas fossem obrigados a ir para o exílio. Na época, os militantes se oporiam energicamente à ideia de apoiar formas de abertura que não fossem acompanhadas pela ampliação dos direitos humanos e pela democracia competitiva. Em sua luta, os brasileiros adquiriram plena consciência dos custos representados por um governo autoritário e comprometeram-se a reconstruir o Estado de Direito. O Brasil foi o defensor por excelência da cooperação regional que deu grande destaque às propostas democráticas. Evidentemente, a ascensão do Brasil a potência mundial inclui uma política externa que privilegia o avanço da democracia e dos direitos humanos, juntamente com a justiça social.

Portanto, é justo esperar um compromisso coerente com os princípios democráticos e os direitos humanos na expansão do prestígio internacional do Brasil. Espero que o colosso do Sul permaneça fiel a esses princípios na construção de uma nova República. É certo criticar Guantánamo bem como as supostas violações dos direitos humanos em outros países; entretanto, duvido que as autoridades brasileiras pretendam desculpar o governo autoritário em Cuba. As autoridades brasileiras parecem pouco propensas a exercer pressões pela promoção do aprimoramento político e de uma abertura, ainda que “lenta, gradual e segura”; mas é precisamente nessa área que o Brasil em particular pode usar sua experiência para influir efetivamente em Cuba no que se refere ao aprimoramento da soberania em um mundo cada vez mais globalizado.

Num contexto mais amplo de ideias e de estruturas que favoreçam a mudança, será particularmente interessante e frutífero que várias organizações brasileiras, nos planos federal e estadual, colaborem com seus parceiros em Cuba a fim de explorarem juntos todas as possibilidades para alcançar um futuro melhor para todos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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