PM terá cartão de visitas em novo programa do Rio

Policiamento comunitário prevê a caminhada de policiais pelas ruas para conversar com a população e evitar o uso de armas letais

CARINA BACELAR, O Estado de S. Paulo

23 Fevereiro 2015 | 18h57

RIO - A Polícia Militar (PM) do Rio vai inaugurar nesta terça-feira, 24, um projeto piloto de policiamento comunitário. A primeira Companhia Integrada de Polícia de Proximidade (Cipp) funcionará no bairro do Grajaú e atenderá também os bairros do Andaraí e Vila Isabel, na zona norte do Rio. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implantadas a partir de dezembro de 2008 em favelas dominadas pelo tráfico de drogas, inspiram o projeto, segundo a Secretaria de Segurança.

A nova política de ação social é consequência do retorno da violência a áreas que, segundo o governo estadual, estavam pacificadas. Os confrontos voltaram a ser diários, o que resultou no aumento de vítimas de balas perdidas, de policiais mortos e feridos e da sensação de insegurança.

O planejamento prevê a caminhada de policiais pelas ruas para conversar com a população e, treinados para mediar conflitos, evitar o uso de armas letais. Não portarão fuzis. Estarão armados com um pistola. Os PMs, que oferecerão cartões de visitas aos moradores, poderão ser identificados por faixas amarelas nos coletes. A intenção é que, aos poucos, a estratégia chegue a todo o Estado do Rio, segundo o chefe do Estado-Maior, coronel Robson Rodrigues.

"A polícia tem que aprender a proceder com as boas práticas das UPPs. A filosofia da polícia de proximidade é um aprendizado com as Unidades de Pacificação. Hoje, a gente está fazendo um piloto com a intenção de difundir esse piloto para todo o Estado do Rio de Janeiro", afirmou.

O novo projeto chega em um momento delicado para os policiais. No último fim de semana, nove policiais militares e civis foram baleados. Quatro morreram. No enterro de um deles em Niterói, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, desabafou. Para ele, a Polícia Militar (PM) "está sozinha".

"Precisamos da ajuda das outras instituições que compõem o conceito de segurança pública. A ponta disso tudo é a polícia, e na ponta a polícia está sozinha", lamentou ele, que definiu como "selvageria" o que ocorre no Rio.

A maioria dos 120 policiais da companhia acabou de ingressar na PM - estratégia igual à empregada nas UPPs. A formação de três semanas em táticas de policiamento de proximidade foi realizada com o auxílio do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Cândido Mendes.

De acordo com Silvia Ramos, coordenadora do Cesec, os superiores hierárquicos dos soldados também receberam formação especial. "Cada dois policiais responsáveis por uma rua são supervisionados por policiais graduados (sargentos), que, por sua vez, são supervisionados por tenentes, que, por sua vez, são supervisionados por um capitão", afirmou.

O Cesec será também responsável pela avaliação permanente do projeto e da atuação dos policiais. Segundo Silvia, a análise e o acompanhamento do projeto por especialistas diferenciam a polícia de proximidade das UPPs. "A própria PM e a Secretaria de Segurança reconhecem que um dos problemas das UPPs é justamente terem sido replicadas em velocidade muito rápida sem que tenha havido um momento de parada e avaliação."

Especialistas alertam, porém, que o convívio de policiais recém-formados com PMs veteranos, acostumados ao policiamento clássico, poderá contaminar os novatos com práticas como corrupção e violência. "A convivência, sem dúvida, tende a favorecer o velho policiamento", afirma Ignacio Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Para ele, a criação de uma polícia para atuação de proximidade em contraposição à polícia tradicional também é passível de críticas. "O objetivo deveria ser que todos os policiais fizessem um trabalho comunitário."

Já Paulo Storani, especialista em segurança e ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), diz ser preciso que as Companhias de Polícia de Proximidade sejam desenvolvidas "com cuidado" e de forma "sustentável", para não sofrerem efeitos nocivos de uma expansão acelerada como as UPPs. "O projeto é de longo prazo. Tudo depende do sucesso do curto prazo, é o que vai dar perenidade."

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