PMDB escala Temer para obter ''proteção'' e ganhar mais espaço

É consenso na cúpula que o perfil de vice veste o figurino do deputado por ser o único que pode colocar na mesa de negociações a força do partido

Christiane Samarco, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2010 | 00h00

Vai além do posto de vice o interesse da cúpula do PMDB em emplacar o presidente do partido, deputado Michel Temer (SP), na chapa presidencial do PT. Empenhados em construir um projeto de poder em um eventual governo Dilma Rousseff, peemedebistas querem um vice com força política para atender a dois objetivos: "proteger" o partido nas disputas com o PT e aliados na campanha eleitoral e garantir um quinhão privilegiado de poder no núcleo palaciano do futuro governo.

Temer alega ser candidato a deputado, que não tem "obsessão" para ser vice do PT, e avisa: "O PMDB fará sua escolha, mas não à revelia da candidata." Assim, sinaliza que não tem a pretensão de impor seu nome em cenário de resistência do PT, do presidente Lula e da própria Dilma. Mas é consenso na cúpula partidária que o perfil de vice para atender aos peemedebistas veste perfeitamente o figurino de Temer. Ele é o único que representa o partido, colocando sobre a mesa de negociações a força política do conjunto do PMDB. É um constitucionalista de traço conciliador, com bom trânsito no Congresso e a experiência de ter presidido a Câmara por três vezes.

A composição da chapa também passa pelo acordo político entre petistas e peemedebistas nos Estados. Temer tem dito que, se não houver "ajustamento", será difícil fazer a aliança.

Líderes do partido lembram que, contra o PMDB de Minas, da Bahia e do Pará, onde as duas legendas estão em disputa aberta, não dá para selar a parceria. "Temos de ajustar uma forma, ainda que seja com palanque duplo. É preciso ter regras claras sobre a presença do candidato a presidente nos dois palanques, para que um partido não fique subjugado aos interesses do outro", expõe Temer.

A disputa na base pelo governo mineiro abriu caminho para lançamento de outro peemedebista para vice de Dilma. Em Minas, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, lidera as pesquisas, enquanto dois petistas - o ministro Patrus Ananias e o ex-prefeito Fernando Pimentel - brigam pela vaga de candidato.

A ala do PT liderada por Pimentel trabalha junto a Dilma para que o vice seja Hélio Costa, com o argumento de que ele pode agregar mais votos, especialmente dos mineiros. Não é o que pensa a cúpula peemedebista, que não vê em Costa os atributos para enfrentar os petistas quando houver conflito de interesses entre as duas legendas.

O líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves (RN), admite que é preciso lidar com vários PTs, quando o assunto é vaga de vice. Uma ala quer acordo mais à esquerda, com o PSB e PC do B. Outro grupo, que inclui o presidente Lula, prefere compor com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para dar mais estabilidade à chapa. "Mas o conjunto do PT, que venceu a eleição interna com quase 70% dos votos, vai acatar a decisão do PMDB."

O que mais incomoda os peemedebistas é a constatação de que o grupo que "cerca" a candidata Dilma é mais radical do que o que o entorno de Lula. Alves entende que Temer também é o "vice ideal" do ponto de vista do PT, quando a candidata, diferentemente de Lula e do tucano Fernando Henrique Cardoso, não tem experiência política nem parlamentar. "O Michel ajudaria muito, por ser homem do Legislativo. Quem melhor do que ele para debater os projetos de interesse do governo com o Congresso?", questiona o líder. É essa possibilidade de o PMDB ocupar o espaço de principal interlocutor com o Congresso e ganhar força no núcleo de poder de um eventual governo Dilma que preocupa o PT.

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