Pobreza, movimentos evangélicos e aids desafiam Igreja na África

GENEBRA - Um aumento exponencial de fiéis, uma explosão no número de seminaristas e igrejas que se proliferam. O continente africano é hoje o terreno mais fértil do Vaticano no mundo. Mas é também onde a Igreja Católica enfrenta seus maiores desafios, entre eles a aids, o envolvimento político de cardeais, a pobreza e a concorrência cada vez maior dos movimentos evangélicos, além de garantir que os sacerdotes mantenham a linha determinada pelo Vaticano - por exemplo, dezenas de igrejas chegam a incentivar o preservativo de maneira formal ou informal.

JAMIL CHADE - CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2013 | 02h06

É o que revela documentos sigilosos de diplomacias europeias e informes elaborados pela Santa Sé em 2011 e 2012 sobre os desafios da Igreja no mundo, que foram obtidos pelo Estado.

Em seu pontificado, Bento XVI viajou duas vezes para a África e, nos encontros com diplomatas, a situação do continente era uma discussão constante. Isso não ocorreu por acaso. Se na Europa há uma queda acentuada no número de fiéis e de padres, a África vive uma realidade oposta. Hoje, 16% dos católicos no mundo estão nos países africanos e não são poucos os que apontam que o futuro da Igreja está no continente.

O número de católicos passou de 1,2 milhão em 1906 para 160 milhões em 2006. Segundo o Vaticano, de 2000 a 2006, o aumento de católicos na África foi o maior do mundo, passando de 12% para 14% da população. No período, o número de padres aumentou 25% e o de freiras, 16%. Enquanto isso na Europa o número de católicos caía de 26,8% para 25% e a quantidade de padres, 6%.

O que mais impressiona a própria Santa Sé é que, desde 2006, os números continuaram crescendo. O de padres, por exemplo, aumentou mais 16% entre 2006 e 2010, deixando os seminários lotados. Só no Congo, o número de católicos triplicou em 35 anos. Não é por acaso que, em Roma, o debate sobre o primeiro papa africano ganhou força.

A explosão de fiéis veio acompanhada de um papel cada vez mais forte da Igreja nos assuntos políticos. Em termos domésticos, documentos mostram que parte da estratégia da Igreja para ampliar sua base é prestar serviços que governos africanos têm, nas últimas décadas, fracassado em oferecer: educação e saúde.

Os temas sociorreligiosos também fizeram parte da agenda da Igreja na região. Como resultado de um acordo entre ministros da Saúde da África, o papa denunciou a "trivialização" do aborto. Mas o mais polêmico foi seu comentário em Iaundê, capital dos Camarões, em 2009, de que preservativos não eram a solução para a aids e agravava o problema. A mensagem da Igreja no continente que tem 24 milhões de pessoas afetadas pela aids (dois terços de infectados do mundo) recebeu duras críticas da ONU e de ativistas.

Mas o Vaticano manteve sua posição. Em 2011, num documento secreto de 135 páginas, Bento XVI tratou a aids como um "problema ético". Para ele, tratamentos não eram "suficientes". "A solução é um despertar espiritual", escreveu, em referência à abstinência.

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