Pobreza provoca polêmica entre Igreja e governo na Argentina

Números de diferentes institutos alimentam debate sobre dimensão do problema.

Marcia Carmo, BBC

23 de maio de 2008 | 06h20

O governo da Argentina se envolveu em uma polêmica com a Igreja Católica devido a dados divulgados nesta semana que indicam que a pobreza no país vem caindo.Os números do Indec (Instituto de Estatísticas e Censos) indicaram que a pobreza caiu de 23,4% (no primeiro semestre do ano passado) para 20,6% (entre outubro e março deste ano). Entretanto, o monsenhor Jorge Casaretto, líder da Pastoral Social e uma das principais vozes da Igreja Católica no país, disse que a percepção de membros da Igreja é de que a pobreza na verdade está aumentando. "Muita gente voltou a pedir comida nos pontos beneficentes da Igreja", disse Casaretto à rádio Continental. Sem citar o nome do monsenhor e sem fazer referência à igreja, a presidente Cristina Kirchner afirmou, na quarta-feira: "Estamos orgulhosos com a queda registrada na pobreza e na indigência". Nesta quinta-feira, ela afirmou: "Nosso objetivo é alcançar a igualdade social". Números diferentesOs ministros do Interior, Florencio Randazzo, da Saúde, Graciela Ocaña, e do Desenvolvimento Social, Alícia Kirchner, também vieram a público para desmentir as afirmações de Casaretto. "É pouco sério medir a pobreza pelos que eventualmente possam se aproximar da Igreja para pedir ajuda", disse Randazzo. Segundo a imprensa argentina, o religioso teria baseado sua afirmação em dados de uma pesquisa realizada pela Universidade Católica, que indicou que a pobreza atinge hoje 28% dos argentinos.Outros institutos colaboram para tornar ainda mais nebuloso o quadro no país.A CTA (Central de Trabalhadores Argentinos) realizou um levantamento que mostra que a pobreza estaria entre 26% e 33%. Já para o especialista Ernesto Krtiz, da SEL (Sociedade de Estudos Trabalhistas), dedicada a análise da pobreza e do mercado trabalhista, ela é de 30%. Nos diferentes casos, eles argumentam que a inflação - que muitos acusam funcionários do Indec de "maquiar" - seria a responsável pelo incremento de pobres. Menina assassinadaEm meio a esta discussão, a morte da menina Milagros Belizán, de 2 anos, revelou as condições que vivem hoje os que estão abaixo da linha da pobreza na Argentina. Milagros foi encontrada nua, amarrada com um fio no pescoço, num terreno baldio a dez quarteirões de sua casa. Ela teria sido golpeada e estrangulada por dois irmãos de 7 e 9 anos, domingo, no bairro de São José, no distrito de Almirante Brown, na Província de Buenos Aires.O jornal Clarín publicou em destaque na primeira página: "História terrível: como viviam os meninos que mataram a bebê em Almirante Brown. Essa é a casa que eles viviam, e há um ano não iam à escola". Na foto um casebre de madeira, cercado por lixo e sem saneamento básico. Segundo o secretário de Desenvolvimento Social do governo da Província de Buenos Aires, Daniel Arroyo, um milhão de crianças (40% do total) vivem na pobreza neste território - o maior da Argentina e onde viviam Milagros e os dois meninos que disseram que a mataram.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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