Pode chamar de merkelismo

A volta atrás na política atômica alemã é boa, mas contém alta dose do populismo de Angela Merkel

Roland Nelles, da Der Spiegel, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2011 | 00h25

Angela Merkel, a antiga sacerdotisa da energia nuclear, encontrou um novo papel para si. Ela se transformou de amiga do lobby atômico em líder com uma obsessão: assegurar uma rápida saída da Alemanha da energia nuclear, trocando-a por painéis solares em cada telhado e turbinas eólicas atrás de cada dique.

Pode-se acusar Merkel de várias coisas - por exemplo, que ela muda de posição conforme o vento. A maioria dos alemães quer um desligamento gradual da energia nuclear, de modo que repentinamente a chanceler também quer - fim da história. Mas a verdade talvez seja mais simples. Talvez Merkel tenha reconhecido que não podemos simplesmente continuar com a energia nuclear na Alemanha. Isso a teria levado a fazer uma virada de 180 graus e se posicionar como uma Rainha Sol dos tempos moderno. Trata-se de uma posição que se coaduna perfeitamente com o desejo popular. Que feliz coincidência.

Em certa medida, a decisão de eliminar gradualmente a energia nuclear é uma vitória do estilo de liderança de Merkel - vamos chamá-lo de "merkelismo". A política do merkelismo baseia-se em dois princípios. O primeiro é que, se o povo quer, deve estar certo. O segundo é que o que for útil para o povo deve ser útil para a chanceler.

Com o merkelismo, políticas são desenvolvidas com uma visão de longo prazo - a saber, com a próxima eleição nacional em mente. Após a catástrofe de Fukushima, a chanceler tinha duas escolhas: podia decidir em favor de uma supressão progressiva acelerada e ir contra os defensores da energia nuclear em seu próprio partido. Ou podia teimosamente se escudar na decisão de 2010 de seu governo de prolongar as vidas operacionais das usinas nucleares da Alemanha - e ir contra a maioria da população alemã.

No fim das contas, Merkel optou pelo menor dos dois males. Apesar de haver irritado o próprio partido, na mente da chanceler essa era a coisa certa a fazer. Era também a única escolha que Merkel tinha se quisesse permanecer chanceler. Qualquer outra teria acarretado um debate prolongado sobre energia nuclear com a oposição que Merkel só poderia perder. Com o desligamento gradual ela tem boa chance de manter a simpatia de uma maioria de eleitores que provavelmente concluirá que ela não está fazendo um mau trabalho, afinal.

Como ocorre com muitos outros "ismos", o merkelismo também pode acarretar algum progresso. Após Fukushima, ficou claro que energia nuclear é uma tecnologia que não pode ser controlada. Fechar nossas usinas nucleares é o único caminho apropriado. Mas parte do merkelismo consiste em evitar as letras miúdas, os detalhes que dificultam a tomada de decisões e inevitavelmente produzem um número grande demais de contradições e problemas não solucionados. Em vez disso, sutilezas como essas são afogadas por uma grande decisão marcante, um gesto grandioso.

A mesma lógica se aplica ao desligamento gradual das usinas nucleares. Apesar da euforia ambientalista que essa decisão pode trazer a reboque, há alguns obstáculos em potencial que não podem ser negados. Para começar, a eletricidade vai se tornar mais cara na Alemanha. O oligopólio das empresas que fornecem eletricidade ao público vai exigir mais dinheiro para financiar seus investimentos em novas tecnologias, procurando para isso o Estado ou os consumidores. A conta a ser paga mal foi debatida - ao menos não dentro da chancelaria de Merkel -, e pode ser necessário algum tempo até que sejam sentidas as bênçãos da nova prosperidade ecológica.

Deve-se também levar em consideração as transformações que a decisão acarretará para a paisagem natural. Se o governo for bem sucedido na rápida expansão da rede elétrica, construindo muitos parques eólicos adicionais e várias centrais hidrelétricas reversíveis, isso tornará a Alemanha um país mais feio, e não mais bonito. Não há motivo para usar meias palavras: a verdade é que ninguém quer turbinas eólicas e postes elétricos no quintal da própria casa.

O desligamento gradual significará que teremos de nos concentrar nas tecnologias que recorrem aos combustíveis fósseis, como as usinas movidas a gás e carvão. Usinas modernas e altamente eficientes abastecidas a gás serão a mais importante de nossas fontes de produção de energia nos próximos cem anos. Os russos podem comemorar, pois isso representa para eles oportunidades comerciais extremamente lucrativas no mercado alemão. Além disso, grandes usinas alemãs abastecidas com carvão continuarão em funcionamento, gerando grandes quantidades de dióxido de carbono a partir do barato carvão importado. Mas quem quer falar sobre as letras miúdas?

No longo prazo, o rumo antiatômico traz para a chanceler mais vantagens do que desvantagens. Essencialmente, permite a ela roubar um importante tema capaz de mobilizar o eleitorado da oposição - principalmente dos verdes, além dos social-democratas (SPD) de centro esquerda. Naturalmente, o SPD e os verdes tentam encontrar algum motivo de queixa nos detalhes do plano de desligamento gradual, mas isso está se tornando cada vez mais difícil. Para a oposição, será agora ainda mais complicado mobilizar seus eleitores contra Merkel. Afinal, o merkelismo borra as distinções partidárias - desmobilizando e freando o ímpeto por mudanças. Para Merkel, importa apenas continuar como chanceler da Alemanha. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK E AUGUSTO CALIL

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