Poesia e exclusão

No funeral de Lucio Dalla, o que se reconheceu não foi o direito universal às próprias relações afetivas; o que se respeitou foi o choro da multidão

Gianni Vattimo,

13 Março 2012 | 16h28

Nunca havia refletido muito sobre este fato: a morte de Dalla, de quem eu era amigo - assim como inúmeras outras pessoas, fascinadas por sua disponibilidade, por sua atenção para com os outros, por seu calor sincero -, finalmente fez com que eu me defrontasse com algo em que vinha pensando há tempos, mas nunca conseguira formular de maneira tão clara. Hoje os poetas são principalmente os cantores-compositores como Lucio. Sempre imaginamos que a música popular fosse uma coisa "facilmente digerível", uma espécie de cinema de consumo ao qual assistimos quando estamos cansados e queremos "nos distrair". Para a maioria das pessoas, a poesia é algo mais solene, remoto, algo ligado às lembranças dos tempos de escola, uma coisa séria demais para fazer parte do nosso imaginário cotidiano. E, muitas vezes, a poesia contemporânea, preocupada justamente com a advertência de Brecht ("Que tempo é o nosso, quando falar de árvores é quase um crime, é silenciar sobre tantas injustiças!"), se refugiou na linguagem hermética que, para não correr o risco de fazer a apologia do existente (da qual Adorno queria fugir pelo caminho do silêncio de Beckett), já não desperta qualquer reação emotiva nos seus (poucos) leitores. Leitores que cada vez mais são apenas outros tantos poetas, ou em todo caso especialistas, capazes de apreciar o refinamento linguístico dos seus colegas. A pintura abstrata, pelo menos, atrai a atenção dos marchands, interessados em avaliar o que podemos considerar a verdadeira originalidade artística em um mundo no qual, ao lado de algumas obras autênticas, se encontram inúmeros pastiches, produzidos apenas para fazer sucesso no mercado. E as elevadas cotações que as obras de arte, inclusive as contemporâneas, alcançam no mercado são uma maneira, também fraudulenta e inautêntica, de afirmar sua presença e relevância pública. Os jornais falam frequentemente do preço alcançado num leilão por algum quadro pelo qual os próprios leitores jamais teriam se interessado ao vê-lo exposto numa galeria. Não há muito o que entender; mas, se o seu preço é tão alto, significa que é importante e vale. Por outro lado, a poesia não tem "mercado", nem mesmo no sentido totalmente falseado das artes visuais. Pelo menos, isso é válido para a poesia "oficial". Não por acaso um poeta como Pasolini, que no entanto cultivava também outras formas de expressão, do romance ao cinema, escolheu escrever poesia "política" (talvez em homenagem à advertência de Brecht), que conseguia, por esse caminho, envolver emocional e intelectualmente o leitor.

 

Pois bem, se procurarmos onde estão hoje os poetas, os que outrora eram ouvidos e admirados em termos de massa (citam-se ainda hoje alguns camponeses da Toscana que sabem de cor alguns Cantos da Divina Comédia, de Dante!), podemos encontrá-los na música popular de alguns compositores. Basta lembrar que Dalla participou algumas vezes do Festival de Sanremo, a sede da cultura italiana mais "popular", da qual uma pessoa culta só espera bobagens e vulgaridades. As canções de Dalla, assim como as de Gino Paoli, de Paolo Conte e de muitos outros compositores de grande destaque (e aqui me refiro apenas aos italianos, mas penso em Caetano Veloso e Chico Buarque...), são a poesia de hoje, ou pelo menos o que melhor desempenha sua função tradicional.

 

A morte de Dalla não revela apenas o valor poético de tantas letras de compositores de hoje, que também são populares e falam a sentimentos dos quais Adorno, Beckett e muitos expoentes da vanguarda desconfiavam, até mesmo justificadamente. A morte de Dalla foi a confirmação da relação entre poesia e "exclusão": Dalla era homossexual, e jamais o negou, mas também não o espalhou aos quatro ventos. No seu funeral, seu companheiro e amante leu uma pungente poesia de sua autoria. Os italianos viram quando ele chorou na TV, durante a solene cerimônia religiosa (mais um escândalo: Dalla era gay e praticante). De fato, ele infringiu de maneira simples, mas contundente, um dos tabus da Igreja católica, um dos maiores e mais devastadores, um tabu baseado na pretensão de impor sua moral "natural" (sexual ou não), a moral que arruína a vida de muitos gays, e também das famílias que gostariam de recorrer à fecundação assistida a fim de gerar o filho esperado em vão, ou de tantos doentes terminais em estado vegetativo permanente que, sempre em homenagem à lei "natural" (na qual acreditam somente papas e bispos), não podem recorrer à eutanásia. O que aconteceu em São Petrônio, em Bolonha, é com certeza uma vitória - de Dalla, do seu companheiro, dos muitos católicos, praticantes ou não, que gostariam que a Igreja fosse menos desumana, menos aferrada aos próprios preconceitos (aliás, sempre funcionais para a afirmação do seu poder sobre a vida das pessoas). Foi também uma clamorosa concessão da hierarquia católica: o gay ao qual foi concedido o privilégio de ser lembrado publicamente pela pessoa amada no decorrer da cerimônia religiosa não era um pequeno homossexual qualquer. O que se reconheceu não foi o direito de todos aos próprios sentimentos e às próprias relações afetivas; o que se respeitou foi a popularidade de Dalla, a multidão que chorava por ele; em outras palavras, sua força. Em várias ocasiões, o papa recebeu com todas as honras ditadores e governantes - Bush, por exemplo - responsáveis por massacres e extermínios. A lição do funeral de Dalla é também esta: não devemos esperar que a Igreja "reconheça" o direito dos homossexuais devotos ou que desista de sua desumana resistência à eutanásia e a uma moral sexual mais conciliadora. O que temos aqui é uma questão de relações de força: são os próprios fiéis que devem obrigar a hierarquia a lembrar-se finalmente do mandato evangélico da caridade. / Tradução Anna Capovilla

 

*Gianni Vattimo é um filósofo italiano, professor da Universidade de Turim e deputado do Parlamento Europeu

 

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