Polêmica sobre inflação esquenta campanha presidencial na Argentina

Oposição acusa governo de manipular dados sobre aumento de preços.

Marcia Carmo, BBC

17 de setembro de 2007 | 11h10

A polêmica sobre a inflação argentina passou a ser um dos principais temas da campanha presidencial, a 42 dias das eleições no país.No fim de semana, os candidatos da oposição criticaram a alta dos preços e as diferenças entre os dados oficiais da inflação e as estimativas de diferentes consultorias econômicas. Órgãos estatais dizem que a cesta básica aumentou 3,6% no primeiro semestre deste ano, mas algumas consultorias afirmam que a alta foi superior a 20%.O ex-ministro da Economia Roberto Lavagna, candidato pelo partido UNA (Uma Nação Avançada) participou de uma manifestação em frente ao Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos, o equivalente ao IBGE), dizendo que entrará com ação na Justiça, nesta segunda-feira, em defesa da independência do organismo e contra a suposta "manipulação" dos dados, que teria sido determinada por assessores do governo do presidente Nestor Kirchner - do qual foi ministro durante cerca de dois anos. "Queremos esclarecimentos rápidos sobre o que está acontecendo no Indec", disse Lavagna.A presidenciável Elisa Carrió, da Coalizão Cívica, apresentou o economista e ex-presidente do Banco Central no governo Kirchner, Alfonso Prat Gay, como seu candidato a ministro da Economia, caso seja eleita. "Hoje, na Argentina, mandam os contrastes", criticou Prat Gay. "A economia cresce 9% anualmente há cinco anos, mas a pobreza continua alta. Temos fartura de recursos, mas falta energia no país." Segundo ele, a suposta manipulação da inflação afeta o valor que a Argentina deve pagar pelos seus títulos públicos, e também afeta os dados reais sobre a pobreza. Neste domingo, o chefe de gabinete da Presidência da República, Alberto Fernández, homem forte do governo Kirchner, reconheceu que a inflação é um problema, mas que tem gente "falando demais" no assunto. Poucas horas antes, o candidato a vice-presidente na chapa liderada por Cristina Kirchner, Julio Cobos, fez coro com a oposição e também criticou a suposta manipulação dos dados. "Tivemos um aumento nos preços, como percebe qualquer cidadão comum, mas isso não está sendo mostrado pelo Indec", disse. A polêmica sobre a inflação real na Argentina ganhou força depois que o presidente do Banco Central, Martin Redrado, afirmou, na semana passada, que está "profundamente preocupado" com a alta de preços. Segundo o Indec, a cesta básica aumentou 3,6% no primeiro semestre deste ano. Para o economista Ernesto Kritz, da Sel Consultores, a alta foi de 23%. No geral, entendem economistas como Miguel Bein, da consultoria Econviews, e Miguel Angel Broda, da Broda e Associados, a inflação este ano será de cerca de 20% e não de menos de 10% como prevê o governo. Uma pesquisa de opinião da consultoria do economista Carlos Fara revelou que cerca de 60% dos argentinos estão preocupados com a inflação e a perda salarial, mas ao mesmo tempo acreditam que "não são reféns do modelo econômico". Eles também continuam otimistas com o futuro, disse Fara. Neste quadro, a senadora Cristina Kirchner, atual primeira-dama, continua favorita nas pesquisas de intenção de voto, com vitória prevista já no primeiro turno. Carrió e Lavagna variam entre o segundo e o terceiro lugar, dependendo da enquete, mas estão longe de ameaçar a posição de Cristina, segundo analistas. Neste domingo, o candidato "kirchnerista",Mario das Neves, foi eleito governador da pequena província de Chubut. Na província de Chaco, a disputa foi bem mais apertada: os candidatos Jorge Capitanich (kirchnerista) e Angel Rozas (oposição) estavam tecnicamente empatados até as últimas apurações. Mas estas não são vistas como eleições decisivas no quadro nacional, devido ao menor número de eleitores nestes estados, frente a outras províncias como Santa Fé e Córdoba, por exemplo.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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