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Polêmico, Roger Agnelli multiplicou por 10 lucro da Vale

Executivo foi presidente da mineradora de 2001 a 2011, quando deixou a função por desavenças com o governo; ele e mais seis pessoas morreram em um acidente aéreo em SP neste sábado

O Estado de S. Paulo

19 Março 2016 | 20h16

O executivo Roger Agnelli, ex-presidente da Vale, é uma das sete pessoas que morreram no acidente aéreo deste sábado em São Paulo. Agnelli tinha 56 anos e era famoso por ser um executivo ousado e de temperamento forte. Foi presidente da Vale por 11 anos, entre 2001 e 2011, período em que companhia passou de oitava mineradora mundial para segunda posição.

Admirado e ao mesmo tempo temido por seu estilo de gestão, o executivo fez o lucro da compannhia sair de R$ 3 bilhões para R$ 30 bilhões no mesmo período. Agnelli chegou a ser eleito pela revista de gestão empresarial Harvard Business Review como o quarto CEO com melhor desempenho no mundo no período entre 1995 e 2010. A lista era liderada por Steve Jobs, ex-CEO da Apple, seguido do presidente da Amazon, Jeffrey Bezos, e pelo ex-CEO da Samsung, Yun Jong-Yong.

Nascido em São Paulo e formado em Economia pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Roger Agnelli começou sua carreira profissional 1981, no Bradesco, como analista de investimentos. Nessa época ele não havia concluído a graduação, mas já chamava a atenção por seu perfil de negociador agressivo e pela rede de relacionamentos que cultivava. Em 1998 tornou-se diretor executivo - aos 38 anos, foi o mais jovem profissional a assumir uma diretoria do Bradesco. Agnelli trabalhou no banco até 2000, quando assumiu a presidência da Bradespar.

Criada pelo Bradesco para cuidar dos investimentos do banco em outros negócios, a Bradespar é uma das principais acionistas da Vale. Mineradora criada em 1942 pelo governo brasileiro, a então Companhia Vale do Rio Doce foi privatizada em 1997 por R$ 3,3 bilhões. Em 2000, Agnelli acumulava as presidências da Bradespar e do Conselho de Administração da Vale, onde teve seu primeiro contato com a companhia que iria comandar.

Nesses dois cargos, Agnelli travou uma disputa interna na Vale com o empresário Benjamin Steinbruch, dono da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e também acionista da mineradora. Após um acordo que envolveu a separação completa entre CSN e Vale, Agnelli assumiu em julho de 2001 a presidência da Vale, substituindo o embaixador Jorio Dauster. Para isso, renunciou aos cargos na Bradespar e no Conselho da Vale.

Durante sua gestão a Vale se globalizou, comprando empresas no mundo todo, como a canadense de níquel Inco, e também expandiu suas fronteiras de atuação para áreas como carvão, fertilizantes e energia, além de construir uma frota própria de super navios mineraleiros, os Valemax. Com faro para oportunidades de negócios e arrojado, ele levou a Vale à China antes do país se tornar a atual potência; também prospectou investimentos em países da África.

Em maio de 2011 Agnelli foi substituído no comando da companhia por Murilo Ferreira, que deu início a uma gestão mais austera diante do fim do boom de preços do minério de ferro. 

A saída de Agnelli da Vale foi marcada por tensões no campo político. A relação do executivo com o governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a estremecer durante a crise de 2008, quando a Vale anunciou uma demissão expressiva, apesar dos apelos de Lula para que as grandes empresas mantivessem os empregos. 

O desgaste cresceu com a resistência de Agnelli em ampliar investimentos no setor siderúrgico, como queria o governo federal. Em 2010, em meio a rumores sobre sua saída iminente, o CEO da Vale chegou a declarar durante viagem à África que as especulações sobre sua saída eram propagadas por integrantes do PT interessados em lotear cargos na companhia.

"Tem muita gente procurando cadeira, essa é a realidade. E normalmente é a turma do PT. Em toda eleição acontece isso. Agora, quem decide são os acionistas", afirmou. A mineradora tem entre seus principais acionistas o próprio governo, o fundo de pensão do Banco do Brasil (Previ) e o BNDES, por meio de seu braço de participações.

Após deixar a Vale, Agnelli permaneceu cerca de um ano fora do mercado, passeando e fazendo estudos na Europa e nos Estados Unidos. Em dezembro de 2011 ele fundou a holding AGN e, em julho de 2012, uniu-se ao banco BTG Pactual, do banqueiro André Esteves, para criar a B&A Mineração. O foco era explorar projetos minerários no Brasil, América Latina e África. Com a queda dos preços das commodities, o executivo decidiu congelar o projeto de exploração de cobre da empresa no Chile, até ter sinais de recuperação do mercado.

A B&A tem ainda um investimento na área de fertilizantes em Bonito, no Pará. A holding de Agnelli tem, além da sociedade na B&A, atuação em bioenergia. A AGN Bioenergia vinha investindo em plantio de cana mais produtiva para ser vendida às usinas para produção exclusiva de etanol e de bagaço para cogeração de energia, mas que ainda não é viável comercialmente.

Logo após a tragédia da Samarco, em novembro, Agnelli deu uma entrevista ao Estado, em que comentou o acidente. "Eu não acho correto falar da Vale. Mas eu torço por ela. Sou acionista (da empresa) e continuo torcendo. Eu tinha uma paixão muito grande pela Vale, respeito demais a empresa, os profissionais que estiveram comigo e que estão lá. É um momento difícil que (ela) está passando, ainda culminando com esse acidente, que é difícil de explicar e que não era para acontecer de forma nenhuma, mas aconteceu. Alguma coisa aconteceu: negligência não é, incompetência não é. Nada disso. A Vale e a Samarco são empresas absolutamente preocupadas com essas questões ambientais e, principalmente, com barragens. Alguma coisa muito fora do imaginável aconteceu", defendeu. 

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