Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE

Polícia adota nova abordagem em manifestação no Rio

Policiais foram identificados com grandes letras e números no colete, para facilitar denúncias de abusos à ouvidoria; representantes da OAB elogiaram iniciativa

Felipe Werneck, O Estado de S. Paulo

25 de julho de 2013 | 20h08

RIO - Em meio a uma série de denúncias de violência policial e questionamentos sobre a participação de policiais infiltrados em manifestações, a Polícia Militar do Rio inaugurou nessa quinta-feira, 25, uma nova forma de atuação durante mais um protesto realizado na rua onde mora o governador Sérgio Cabral (PMDB), no Leblon, zona sul. Cem policiais fardados e identificados com grandes letras e números nos coletes circulavam entre os manifestantes, revistando mochilas de alguns deles.

O Batalhão de Choque, o veículo blindado Caveirão e o Brucutu, que lança jatos d'água, ficaram dentro da barreira formada por grades de ferro na Rua Aristides Espínola. "A partir de hoje, vamos atuar no meio das multidões para prevenir delitos e selecionar grupos que estão se aproveitando das manifestações para cometer crimes. O Choque não tem conseguido fazer essa seleção", disse o tenente-coronel Mauro Andrade. Segundo ele, os PMs deste novo grupo atuam no policiamento em estádios e em shows realizados na Praia de Copacabana. "Observamos que havia uma lacuna."

Sobre a falta de identificação dos policiais pelos nomes, o coronel disse que "isso ainda não ficou pronto". Segundo ele, denúncias podem ser encaminhadas à corregedoria da PM pela identificação alfanumérica, cuja relação é controlada pelo comando da tropa. A forma de abordagem dos policiais foi elogiada por advogados que acompanham as manifestações desde o início. "Até agora, é a primeira vez que a PM está agindo com inteligência, educação e sem truculência", disse a advogada Priscila Pedrosa Prisco, do grupo Habeas Corpus -RJ, que tem apoio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Manifestantes reagiam às revistas filmando tudo. Pediram inclusive que um homem apontado por eles como policial infiltrado fosse revistado, o que ocorreu - ele era segurança, e não estava armado. Com o tempo frio e chuvoso no Rio, a manifestação não teve tanta adesão quanto as anteriores. O ato reunia cerca de 250 pessoas até as 20h30, quando o grupo decidiu percorrer ruas do bairro e caminhar até Copacabana. Não houve confronto.

Mais uma vez, Cabral foi o principal alvo. Em pesquisa divulgada nessa quinta, o governador teve apenas 12% de aprovação. Muitos manifestantes lembravam o sumiço do pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido após ser levado por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) para averiguação no dia 14 de julho. Eles gritavam frases como "Cabral, bandido, cadê o Amarildo". Ainda na Avenida Ataulfo de Paiva, no Leblon, manifestantes encenaram uma missa de sétimo dia dos manequins da Toulon, loja de roupas depredada após confronto ocorrido no último protesto realizado no bairro, no dia 18.

Quando o grupo chegou à Avenida Nossa Senhora de Copacabana, por volta de 21h30, peregrinos que haviam participado do evento com o papa Francisco na orla de Copacabana deixavam o local. "Não é procissão, é manifestação", gritavam. Ao longo do caminho, foram ganhando adesões e chegaram a reunir cerca de 500 pessoas. O grupo seguiu até a Avenida Princesa Isabel, ao lado do palco da Jornada, onde havia uma barreira policial. Novamente, não houve confronto. "Que coincidência, não tem o Choque, não tem violência", ironizavam. O ato só terminou no início da madrugada, depois que um grupo de cerca de 50 pessoas fechou o trânsito na avenida. O Choque apareceu para liberar a pista e houve um certo impasse na negociação depois que um ônibus furou o bloqueio, ameaçando manifestantes, mas o público acabou se dispersando. Alguns ativistas ainda soltaram rojões dentro do túnel que liga Copacabana a Botafogo e a PM lançou uma bomba de gás, mas o tumulto não se alastrou como em outras manifestações.

 
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