Polícia é condenada por expor público na morte de Jean Charles

Scotland Yard foi considerada culpada por colocar segurança do público em risco na morte do brasileiro

Agências internacionais,

01 de novembro de 2007 | 12h45

A Polícia Metropolitana de Londres foi considerada culpada nesta quinta-feira, 1, por colocar a segurança do público em risco no episódio que resultou na morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, em 2005.   Caso Jean Charles, da morte à sentença contra a Scotland Yard  O eletricista foi morto a tiros pela polícia em 22 de julho de 2005, ao entrar em um vagão de metrô na estação de Stockwell, no sul de Londres, depois de ser confundido com um homem-bomba. O episódio aconteceu um dia após uma tentativa frustrada de ataque terrorista ao sistema de transporte público da capital inglesa, e duas semanas depois de uma série de explosões que deixou mais de 50 mortos na cidade. Jean Charles foi confundido com um dos suspeitos pelo atentado frustrado. A comandante da polícia que estava a cargo da operação, Cressida Dick, foi isenta de qualquer responsabilidade individual.  Ainda assim, em sua investigação, a promotoria britânica identificou 19 falhas na operação policial nas horas anteriores à morte de Jean Charles. A polícia foi condenada a pagar uma multa de 175 mil libras (cerca de R$ 634 mil) e mais 385 mil libras (cerca de R$ 1,394 milhão) pelos custos do processo. A Scotland Yard poderá recorrer da sentença.  Segundo o presidente dos jurados, "ao chegar a este veredicto, o júri não atribui nenhuma culpabilidade pessoal à oficial (Cressida) Dick", a cargo da operação policial que acabou com a vida do brasileiro, de 27 anos. Em um comunicado, o chefe da Autoridade da Polícia Metropolitana, Len Duvall, disse que policiar Londres é um "trabalho duro".  "A gente pede à polícia que faça um trabalho difícil em nosso nome e, às vezes, eles cometem erros", disse Duvall. "Este caso envolveu a morte trágica de um inocente", acrescentou. "Nosso objetivo é garantir que todos aprendam algo com essa tragédia." Após a divulgação da sentença, o Partido Liberal-Democrata (terceira força no Reino Unido) pediu a renúncia do comissário-chefe da Scotland Yard, Ian Blair. Processo O advogado de defesa da polícia, Ronald Thwaites, disse ao júri que Jean Charles estava agindo "de maneira agressiva e ameaçadora" quando foi interpelado pelos policiais, mas ativistas reagiram com protestos e acusaram a polícia de tentar denegrir a imagem do brasileiro. A promotoria também acusou a defesa de manipular uma composição fotográfica juntando o rosto de Jean Charles e do suspeito Hussein Osman, com quem o brasileiro foi confundido, para fazer com que os dois ficassem mais parecidos. Antes do início do julgamento, o comandante da Polícia Metropolitana, Ian Blair, disse temer que um veredicto de "culpado" tivesse um impacto profundo no policiamento em todo o Reino Unido. A Scotland Yard estava sendo julgada por violação da Lei de Segurança e Higiene no Trabalho de 1974, que obriga as forças de segurança a velar pela integridade até mesmo dos que não são seus empregados. A Promotoria já tinha decidido absolver os agentes envolvidos no caso.  Falhas Durante o julgamento, a promotoria argumentou que "falhas fundamentais" em todos os níveis levaram à morte de Jean Charles. A operação começou quando detetives que investigavam os atentados fracassados da véspera ligaram um dos suspeitos, Hussein Osman, a um bloco de apartamentos no sul de Londres. Jean Charles morava no mesmo prédio e, quando saiu de casa, às 9h30 (hora local), os agentes de vigilância não estavam certos se ele era o alvo. A promotoria disse ao júri que a situação piorou porque os oficiais de mais alto escalão falharam em se ater ao plano antes acordado, enquanto a patrulha armada foi mal informada e nas ocasiões erradas. A polícia negou essas alegações e afirmou que os comandantes e agentes que participaram da operação fizeram o possível para interceptar o suspeito e minimizar os riscos para o público.

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