Política marca encontro de escritores

Vindos do Oriente Médio, autores criticam união da política com a religião em seus países

UBIRATAN BRASIL, ANTONIO GONÇALVES FILHO, ENVIADOS ESPECIAIS / PARATY, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2012 | 03h06

O tom político marcou o encontro entre o poeta sírio Adonis e o escritor libanês Amin Maalouf, ontem à tarde, durante a 10.ª Festa Literária Internacional de Paraty, que termina amanhã na cidade fluminense. O ceticismo com o rumo da Primavera Árabe e com o governo do presidente americano Barack Obama, entre outros tópicos, orientou o discurso dos dois autores, cuja obra oferece um olhar original sobre a tradição muçulmana em oposição direta ao fundamentalismo.

"Se a mudança na Síria não for social e cultural, se não acontecer a separação entre religião e política e se a mulher continuar prisioneira das leis islâmicas, a troca de regime não vai significar nada", decretou Adonis, de 82 anos, que se tornou um dos principais críticos dos acontecimentos nos países árabes.

Como havia narrado ao Estado no início da semana, o poeta lembrou sua euforia com o início do movimento, em 2010. "A liderança era dos jovens e, pela primeira vez, a juventude árabe não copiava algo do Ocidente", disse ele, que chegou a compor poemas celebrando as mudanças. "Logo, as forças iniciais foram afastadas e entraram em campo os fundamentalistas, o que comprometeu o processo."

Autointitulado um otimista inquieto, Amin Maalouf também se disse eufórico com a revolução, que se iniciara de forma pacífica. "Depois, especialmente na Líbia, o pacifismo se transformou em uma mera lembrança", comentou ele, para quem a mudança mais difícil é a de cunho social.

Herança. Não só pela adoção do nome de um deus pagão, Adonis é contrário ao fundamentalismo religioso. Essa herança cultural panteísta, como defende, é essencial para a sobrevivência da poesia, marginalizada pelos líderes muçulmanos, pois foi por meio do misticismo que ele conheceu, como diz, a noção da alteridade.

"Amigo é um outro que é você mesmo", definiu, recorrendo a um antigo poeta sírio - mas essas palavras também poderiam ter sido ditas por um europeu como Montaigne. Sim, porque, segundo Adonis, Ocidente e Oriente são conceitos políticos imperialistas.

Concordando com Adonis, Maaoluf lembrou ter sido criado em um ambiente de intelectuais árabes e europeus, afirmando que sua identidade foi construída pelo diálogo com o Ocidente. "Se Paris cresceu em torno da Sorbonne, Beirute cresceu igualmente em torno da universidade que reunia a comunidade internacional", disse. "Meu desapontamento é não ver essa experiência concluída."

Beirute como um laboratório de coexistência entre diferentes culturas ficou no passado. Adonis, mais pessimista ainda, disse que a Primavera Árabe, apesar de ser uma experiência revolucionária e visionária, pode se transformar num rigoroso inverno se a sociedade como um todo não mudar e o Estado continuar vinculado à instituição religiosa.

Democracia. Maalouf acredita que seja possível obrigar os governantes de países dominados pelo fundamentalismo islâmico a participar do jogo democrático, mas Adonis discorda que essa pressão política resulte positiva. "É só a substituição de um fascismo militar por um fascismo religioso", concluiu. Maalouf explicou que isso se deve à desmoralização completa da sociedade síria, carente de educação, de uma cultura que não seja a imposta de cima para baixo.

"A cultura religiosa nos países árabes é uma instituição, não uma experiência pessoal. E sendo o Islã regido pelas palavras do Profeta, qualquer tipo de contestação, de livre pensar, é uma manifestação contra Deus, que tem a última palavra", argumentou Adonis. "Então, a literatura árabe criativa não é uma resposta para uma sociedade como essa, regida pela religião."

Haveria uma saída pacífica para uma sociedade que blinda o pensamento literário e o diálogo com o Ocidente? Qual seria a influência do presidente americano Barack Obama na mudança da situação dos países árabes? Para Adonis, "Obama é um homem branco com uma máscara negra". Maalouf, reconhecendo ser um irrefreável otimista, diz que o presidente representa um avanço na política americana. "Só espero que a revolução nos países árabes não seja sangrenta como a francesa."

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