Políticos veem cinismo em declarações de Lula

Comparação de presos comuns no Brasil e presos políticos em Cuba é qualificada de oportunista

Leandro Colon, Felipe Recondo, O Estadao de S.Paulo

10 de março de 2010 | 00h00

BRASÍLIA

As palavras do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, sobre os presos cubanos, em entrevista dada ontem à Associated Press, foram consideradas "oportunistas" e "incoerentes" por parlamentares das Comissões de Relações Exteriores da Câmara e Senado e também pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Para o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), Lula erra ao comparar os presos comuns dos presídios brasileiros com os detidos em Cuba por crimes políticos.

"É mais do que oportunismo, é de um cinismo atroz. Jamais se deve comparar alhos com bugalhos", afirmou Jungmann.

"É preciso denunciar a situação caótica dos presídios brasileiros, mas também devemos ter coragem de condenar o tratamento (dispensado) aos presos cubanos", afirmou o deputado, integrante da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

O presidente da comissão, deputado Emanuel Fernandes (PSDB-SP), compartilhou do mesmo discurso.

"O Brasil tem de ser contra a prisão política. Todo o esforço do país em ter uma política externa de relevo vai por água abaixo com esse discurso do presidente", afirmou.

Segundo Fernandes, o tema pode ser discutido na primeira reunião da comissão, marcada para hoje.

Jungmann criticou ainda a declaração em que Lula afirma que não vai se intrometer na legislação, muito menos na Justiça cubana.

Segundo o deputado, Lula interveio em Honduras porque acreditava que o presidente deposto, Manuel Zelaya, sofrera um golpe da "direita", embora tenha sido "deposto judicialmente".

Mas no caso de Cuba, uma "ditadura de esquerda, Lula diz que não se intromete".

O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), classificou de "incoerente" essa declaração de Lula sobre não intervenção.

"Tivemos uma ação de interferência na Itália, quando ele não quis extraditar o terrorista Cesare Battisti. É uma posição ao sabor dos ventos", frisou o tucano.

"Acredito que o presidente esteja sendo incoerente com o seu passado. Não é possível comparar preso político com criminoso comum", afirmou.

OAB

A posição dos parlamentares foi seguida pelo presidente da OAB nacional, Ophir Cavalcante. "É uma questão de viés ideológico. A leitura que o governo Lula faz do regime de Cuba é de que é um governo popular e socialista e, por isso, estaria legitimado. Nossa sociedade tem outra formação que não condiz", afirmou.

"Parece que o presidente confunde a greve com fins políticos com greve de fome feita por criminosos comuns. É uma comparação que não tem cabimento", acrescentou Cavalcante. "Eu não sei que finalidade há por trás disso, mas essa é uma comparação sem nenhum tipo de fundamento."

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