Pontífice deve estender mudanças à Cúria

A espontaneidade do papa Francisco nos primeiros dias de pontificado está exigindo uma adaptação rápida do cerimonial, da diplomacia e da segurança do Vaticano a um comportamento informal e imprevisível. As surpresas deverão ser maiores a partir do momento em que ele mexer na estrutura das congregações, comissões, conselhos e outros órgãos menores da Cúria Romana, até agora sem alterações.

JOSÉ MARIA MAYRINK, ENVIADO ESPECIAL / VATICANO, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2013 | 02h03

A reforma do governo central da Santa Sé é uma reivindicação dos cardeais, manifestada tanto em declarações públicas como nas sessões preparatórias do conclave. É certo que começará pela Secretaria de Estado, presidida pelo cardeal Tarcísio Bertone, que deverá ser substituído.

Ao contrário de Bento XVI, que anunciou a nomeação de novos auxiliares imediatamente após ter sido eleito, em 2005, Francisco preferiu manter interinamente toda a equipe do pontificado anterior, para depois fazer uma reestruturação em bloco. Os atuais prefeitos continuam nos cargos, mas sem saber se serão reaproveitados.

Daí o silêncio de alguns cardeais, enquanto não sai a reforma. O brasileiro João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, crítico da Cúria nas reuniões pré-conclave, foi muito arredio à imprensa antes da eleição de Francisco e continuou discretíssimo depois, sob a alegação de que, nesse momento, era prudente nada falar.

Não se sabe como será a nova equipe de Francisco, mas pode-se imaginar que ele vá inovar, mesmo que convoque auxiliares de diferentes tendências. O cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, que foi muito cotado nas apostas para a sucessão de Bento XVI, poderá ser chamado para assumir uma congregação.

Segurança. Os agentes responsáveis pela proteção do pontífice e a polícia italiana, que age em parceria com o esquema da Santa Sé, levaram já alguns sustos, quando o papa argentino fugiu das normas, exigindo deles uma reação improvisada. Por exemplo, na Igreja de Sant'Ana, onde Francisco saiu do ritual para cumprimentar os fiéis, que puderam abraçá-lo e conversar com ele. A segurança ficou aparentemente assustada, porque ainda sente o trauma do atentado sofrido por João Paulo II em 1981, enquanto ele percorria de papamóvel as passarelas da Praça São Pedro.

No plano pastoral, Francisco corresponde aos anseios daqueles que esperavam do conclave a escolha de um pastor. É comovente a decisão do papa de celebrar uma das cerimônias de Quinta-feira Santa lavando os pés de 12 internos, representando os apóstolos, numa casa de detenção de Roma.

Entre tantas novidades e surpresas, não se espere que Francisco altere normas da doutrina moral da Igreja. Questões como aborto, eutanásia, união de homossexuais, uso de contraceptivos e admissão à eucaristia de casais de segunda união continuarão intocáveis. Poderá haver, no entanto, maior elasticidade pastoral no acolhimento de católicos que enfrentam essas situações.

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