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Por águas turvas

Volta de Phelps às piscinas traz à tona a síndrome de Marfan, doença de longilíneos

Mônica Manir,

19 Abril 2014 | 15h23

O retorno era questão de tempo, disse seu treinador. Voilà! Depois de pendurar a touca em 2012, Michael Phelps volta a apertá-la contra as orelhas nesta semana. Aos 28 anos, o maior campeão da história das Olimpíadas anunciou que disputará as eliminatórias dos 50 e 100 metros livres e 50 e 100 borboleta no Grand Prix de Mesa, no Arizona. A envergadura da competição é relativamente modesta para um ganhador de 18 ouros olímpicos, mas na justa medida, afirma ele, para quem deseja retomar aquilo para o que nasceu. Phast Phish quer nadar.

Também era questão de tempo voltar a discussão sobre sua condição física. Os quilos extras, adquiridos nesse intervalo, foram fáceis de perder. Phelps provavelmente será um silfo por toda a vida. Mas já emerge uma pergunta, que não é de agora: é perigoso para um portador de Marfan competir, seja em que nível for? Antes disso: Phelps é ou não "marPHonic"?

Muitos olheiros clínicos dizem que sim. O americano carrega braços longuíssimos, com uma amplitude de 2,01 m, nada proporcional ao seu 1,93 m. Dispõe de nadadeiras naturais: calça 48. Seus dedos compridos levam vantagem no tira-teima da chegada. Ele exibe uma hipermobilidade de braços, pernas e punhos, como se vê na foto. O rosto é afunilado, os dentes apinhados, o palato altamente arqueado. De frente, de lado, de costas, de baixo, Michael Phelps seria portador da síndrome de Marfan.

Mas muitos portadores da doença não ficam apenas no esquelético-bucal. Eles apresentam luxação do cristalino e propensão a enfisema pulmonar. Mais grave ainda: a maior e mais importante artéria do corpo pode se dilatar além da conta. "A síndrome de Marfan é a principal causa de ruptura da aorta", afirma Lygia da Veiga Pereira, professora titular de genética humana da USP, cujo doutorado em Nova York se baseou no tema.

Diante dessa fragilidade, esforços extremos não são exatamente recomendáveis. Que o digam, se ainda pudessem, Chris Patton, estrela do basquete, e Flo Hyman, do vôlei, ambos americanos. Em 1976, Chris, 2,06 m, jogava um "esquenta" com parceiros quando deu uma enterrada. Morreu antes de tocar o solo. Dez anos depois, Flo, 1,96 m e atleta olímpica, causou surpresa tal e qual. Num jogo da liga japonesa, ela atendeu ao apito e foi para o banco. Segundos depois, silenciosamente, deslizou para o chão e ali ficou. O enfarte dos dois, descobriu-se mais tarde, resultara do rompimento da aorta, fruto de uma Marfan desconhecida da família.

A síndrome não é desta geração nem da do século passado. Em 1896 o pediatra francês Antoine Bernard-Jean Marfan já a tinha identificado numa menina de 5 anos. Mas, como outras doenças raras – sua incidência é de 1 para 10 mil -, ela circula especialmente nas conversas e nas associações de portadores. Flávia Heumann, da Fundação Síndrome de Marfan Brasil, atende famílias do país inteiro, aflitas por um norte. Flávia faz a ponte entre os pacientes e os médicos. Também dá testemunho de um futuro bem possível. Uma palpitação diferente a levou a uma cirurgia de emergência aos 27 anos para conter um aneurisma na aorta. Hoje com 41 e uma filha, ela faz exames periódicos e toca a vida. "Eu foco mais na parte não Marfan do que na Marfan."

Que ela saiba, ninguém na família tem o distúrbio. Flávia, 1,60 m, faria parte dos 30% de casos esporádicos. A maioria tem o gene herdado de pai ou mãe, que, por sua vez, têm 50% de risco de passar o gene aos filhos, com maior ou menor gravidade em relação às próprias manifestações clínicas. Localizado no cromossomo 15, esse gene (fibrilina-1) é um tanto volúvel a mutações, o que dificulta o diagnóstico por DNA. Fica a critério dos médicos a observação clínica e o tratamento adequado para quem mostra sintomas, precocemente ou na idade adulta. A boa nova, anuncia Lygia da Veiga Pereira, é que uma experiência com o uso de anti-hipertensivos curou a deficiência cardíaca de camundongos afligidos pela doença.

Entre os famosos com a síndrome, há apostas literalmente altas em Abraham Lincoln, Niccolò Paganini, Charles de Gaulle, Sergei Rachmaninoff, Austin Carlile, Vincent Schiavelli e até Júlio César e Tutancâmon. Um candidato mais recente ao diagnóstico foi Osama bin Laden, esguio demais para o padrão familiar (ele teria quase 2 m), rosto chupado além da conta e um esqueleto frágil, mesmo para suas restrições cavernosas. Fala-se inclusive de uma deficiência cardíaca, que, se houve, jaz sem diagnóstico no fundo de algum mar. Ou não.

Phelps começou a nadar por causa de outro distúrbio: transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Era um garoto agitado, e a piscina veio a calhar para quem se angustiava com os efeitos da Ritalina. Em casa, exemplos não faltavam. As duas irmãs mais velhas, Whitney e Hilary, também são nadadoras. Veja uma imagem dos três no Face do campeão, sobre fundo aquático. Também dê uma olhada no livro Beneath the Surface (Sob a superfície), que ele lançou em 2005 em coautoria com Brian Cazeneuve. Ali ele comenta o susto com a possibilidade de ser portador de Marfan. Diz que, depois de uma taquicardia, recebeu a sugestão de Bob Bowman, o treinador, para procurar um cardiologista. Nada de importante teria aparecido no ecocardiograma. Mas uma vez ao ano, por via das dúvidas, ele passa por exames para checar seu propulsor.

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