Por filhas, pesquisador troca mestrado por emprego

Para sustentar família após nascimento de gêmeas, cientista abandona pesquisa e muda de área de atuação

O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2012 | 03h05

O valor defasado da bolsa tirou o cientista da computação Marcone Chardosin Magnus, de 27 anos, do mestrado. O País ficou com um mestre a menos e Magnus teve de se contentar em perder um ano e meio de pesquisa e ficar com uma lacuna no currículo.

Formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2010, Magnus havia iniciado o mestrado na mesma instituição no início do ano passado, com pesquisa na área de telemedicina, em ferramentas virtuais que garantem laudos médicos a distância. Mesmo vivendo apertado com o dinheiro, seguia firme até que a mulher deu à luz as gêmeas Alicia e Natalia. "Faltava só um ano para acabar, tinha feito todas as matérias. Mas elas nasceram em outubro, eu ainda fiquei até o final do ano. Mas depois não deu mais."

Para sustentar a família, Magnus abandonou o mestrado e foi trabalhar numa empresa privada. A necessidade por um salário maior foi decisiva. Trocou até de área de atuação, o que não estava nos seus planos: de telemedicina para agricultura de precisão.

Expectativa. Magnus pretende voltar um dia ao mundo da pesquisa, mas os custos de vida não abrem espaço para uma perspectiva a curto prazo. "Sem a pós-graduação, algumas portas se fecharam. Eu pretendo voltar, mas agora com as filhas vai depender de muita coisa."

O pesquisador Mohamad Nagashima, de 23 anos, não tem filhos e credita a isso a possibilidade de permanência no mestrado. "Se tivesse filhos, seria impensável. Para cuidar dos cachorros já está difícil", brinca ele, mestrando em Filosofia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele toca uma pesquisa em filosofia da ciência.

Nagashima tem dedicação exclusiva à pesquisa e, segundo ele, a conta dos gastos de condução, moradia e custos pessoais não fecha. "Sinceramente, só consigo pagar tudo porque minha mulher trabalha", diz ele. / P.S.

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