Por mensalidade baixa, brasileiros vão estudar Medicina na Argentina

Educação. Estima-se que cerca de 4 mil jovens tenham deixado o País para estudar em uma faculdade argentina, que cobra, em média, cerca de R$ 1,6 mil por mês, contra R$ 5 mil no Brasil; conselhos de Medicina questionam qualidade do profissional formado

LÍGIA FORMENTI / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2013 | 19h52

Depois da Bolívia e de Cuba, a Argentina se tornou o novo destino de estudantes brasileiros interessados em cursar Medicina. São cerca de 4 mil jovens que, diante de dificuldades para conquistar uma vaga em instituições públicas nacionais ou pagar as altas mensalidades, acabaram recorrendo a faculdades naquele país.

Em 2012, apenas no Consulado da Argentina de Belo Horizonte foram mais de cem pedidos de vistos para estudantes. O fenômeno, que se repete nas demais representações do País, ganhou força nos últimos dois anos.

Na embaixada brasileira na Argentina, o aumento da procura também é confirmado. São vários os pedidos de informação recebidos na representação, sobretudo para cursos de Medicina.

"Não é difícil entender a razão: a mensalidade no Brasil custa, em média, R$ 5 mil. Na Argentina, o aluno gasta cerca de R$ 1,6 mil mensais", afirma o presidente do Instituto Sul Americano de Pesquisa e Desenvolvimento (Isped), Valdir Carrenho Júnior.

A empresa foi montada de olho nesse mercado. Organiza processo seletivo para a Universidad de Morón, em Buenos Aires, além de ajudar na matrícula e permitir que a mensalidade seja paga no Brasil. "Temos classes só de brasileiros, com aulas de espanhol e matérias que lá não são dadas, como bioética."

De acordo com ele, 200 brasileiros se inscreveram nos últimos quatro anos apenas nesta faculdade. Além do Isped, uma série de outros escritórios foram abertos nos últimos anos para auxiliar estudantes que querem cursar Medicina em faculdades da Argentina e Bolívia.

"A matrícula numa faculdade no exterior está longe de solucionar o problema", diz o presidente do Conselho Estadual de Medicina de São Paulo (Cremesp), Renato Azevedo Júnior. Ele alerta que a qualidade dos cursos, em boa parte dos casos, está longe de ser razoável: classes superlotadas, laboratórios sem equipamentos e ausência de aulas práticas e hospitais de apoio.

A estimativa, diz Azevedo, é a de que existam cerca de 25 mil brasileiros cursando Medicina no exterior. "Estamos criando um problema enorme. Alunos que investem tempo e dinheiro e que, provavelmente, serão empurrados para a clandestinidade."

O presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Roberto D'Ávila, tem a mesma visão. "Não se trata de corporativismo ou xenofobia. Esses jovens acreditam que os cursos representam uma saída para dificuldades imediatas. Mas eles saem despreparados para vida profissional: sem uma base teórica sólida, sem conhecimento de problemas de saúde pública do Brasil e, sobretudo, sem experiência para cuidado do paciente."

Validação. Médicos que se formaram no exterior só podem trabalhar no País após validarem o diploma. Para isso, precisam passar por um exame organizado nacionalmente, o Revalida, ou se submeter a provas feitas por universidades federais que não aderiram ao exame nacional. O processo, porém, não é fácil. Em 2012, dos 884 profissionais que fizeram o exame, apenas 77 foram aprovados - ou 8,7%.

"Os resultados são ruins desde que o teste foi criado. E não é um problema do exame, mas da formação do aluno", diz D'Avila.

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