Por que não Química?

No Ano Internacional da Química, cientistas querem afastar pecha de vilão ambiental do [br]setor, que precisa de sangue novo e tem emprego de sobra

Carlos Lordelo e Felipe Mortara, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

Química causa arrepio em muita gente, de vestibulandos ansiosos a ativistas ambientais. Para desconstruir a imagem de vilã, a ONU escolheu 2011 como o Ano Internacional da Química (AIQ). Pesquisadores têm pegado carona no evento para mostrar o quanto a química está na base de tudo, mesmo dos processos mais naturais, como a fotossíntese. E para falar da necessidade de ter novos químicos nos laboratórios e nas empresas - a indústria química é peça-chave de qualquer economia desenvolvida.

"Se a química tem essa pecha de nociva, é por desconhecimento de suas aplicações", diz o presidente da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), César Zucco. A situação também preocupa químicos que estão no mercado. "Há uma aversão dos jovens pela química, o que prejudica o setor", diz o presidente do Conselho Regional de Química da 4.ª Região, Manlio de Augustinis.

Emprego não falta. Estudo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) mostra que o setor pode abrir 200 mil vagas para químicos e engenheiros químicos até 2020, caso se atinja o objetivo de zerar o déficit da balança comercial (veja números nesta página). A previsão é otimista: depende do investimento de R$ 270 bilhões na próxima década. Segundo o presidente da Abiquim, Fernando Figueiredo, a indústria paga bem e, por isso, exige profissionais altamente qualificados.

As empresas também estão atrás de recém-formados que se sintam à vontade no escritório, diz Joana Rudiger, consultora de treinamento e desenvolvimento na gerência de Gestão de Talentos da Basf. "Hoje o mercado cobra algo que por muito tempo não se esperou da área técnica, o empreendedorismo." Para melhorar a relação entre o que a companhia pede e o que as universidades oferecem, a Basf realiza palestras em escolas como o Instituto de Química (IQ) da USP. "Caiu o preconceito dos estudantes quanto à possibilidade de ter uma carreira de pesquisador nas empresas."

Kesley Oliveira, de 38 anos, só começou a pensar em fazer pesquisa no setor privado durante o doutorado em Química, na Unicamp. Ela hoje é funcionária do Cristália, laboratório farmacêutico nacional que mais investe em pesquisa. Especialista em cristalografia de proteínas, Kelly se considera no "melhor dos mundos". "Trabalho para que a molécula vire medicamento. É um sonho conseguir resolver o problema de saúde de alguém."

O Cristália passou a contratar doutores há 11 anos. Desde então, já depositou 126 pedidos de patentes, dos quais 28 foram concedidos. "Buscamos profissionais com pós-graduação porque eles têm habilidade de aprender e independência para solucionar problemas", diz Antonio Carlos Teixeira, gerente de Operações da área farmoquímica da empresa.

Pré-sal. O setor de produtos farmacêuticos é o segundo em faturamento na indústria química do País. Em primeiro lugar vem a petroquímica, que utiliza derivados de petróleo ou gás natural como matérias-primas básicas para uma enorme variedade de produtos, como o plástico. E essa posição de liderança deve ser mantida por anos a fio, com a exploração do petróleo do pré-sal.

A petroquímica é também a que mais emprega - de técnicos a doutores. Engenheira química com mestrado pela Poli-USP, Cristiane Tolotti, de 35, trabalha na Braskem, maior empresa do setor no País. No polo de Capuava, em Mauá, Grande São Paulo, ela otimiza processos: faz cálculos para produzir mais polímeros com a capacidade instalada da planta. "A química ensina a olhar para os problemas sob outro ângulo."

Em um dos laboratórios da Braskem está Marco Mendes, de 45, técnico, bacharel e pós-graduado em Química. Segundo ele, a informatização dos processos demanda profissionais que saibam do básico de Excel até linguagem de programação. "A produção é toda automatizada e depende dos resultados da pesquisa feita no laboratório e da interpretação do químico dos dados fornecidos pelas máquinas."

Analisar informações é fundamental para corrigir eventuais problemas na linha de produção, conta o químico Adelino José dos Santos, de 46. Técnico de processos da Bridgestone em Capuava, ele segue os padrões de fabricação de pneus da matriz, o que não implica que seu trabalho seja enfadonho. "O tempo todo é necessário fazer ajustes nas fórmulas, porque a composição das substâncias não é igual em todos os países e, portanto, reagem de formas diversas", diz. "É preciso ser criativo."

Há quem prefira exercer a criatividade nos laboratórios das universidades. É o caso do doutorando do IQ-USP Filipe da Silva Lima, de apenas 25 anos. Ele pesquisa surfactantes, como detergentes, desde a graduação. "Adoro o que faço", diz o aluno, que viaja em setembro para um "sanduíche" (estágio) na Alemanha, onde concluirá a parte teórica de sua tese. Filipe já havia passado seis meses em Portugal, e voltou com boas impressões. "Estamos muito mais bem servidos em termos de estrutura para pesquisa. Foi bom ter saído para valorizar o que temos aqui."

Histórias como a de Filipe são comuns na USP, diz o chefe do Departamento de Química Fundamental do IQ, Luiz Henrique Catalani. "O programa de iniciação científica ficou muito forte esta década, transformando a vida dos alunos", diz. "E, se quiserem, eles podem continuar os estudos em um dos melhores cursos de pós do País."

A pesquisa brasileira tem alcançado relevância mundial em áreas como a de energia, biocombustíveis, biotecnologia química, nanotecnologia e farmoquímica, entre outras. O número de projetos financiados também cresceu, dizem os cientistas, mas há gargalos: dependemos de insumos importados e estamos isolados da produção de centros como Estados Unidos, Europa e Ásia.

Paraibana, a professora da Unesp Vanderlan Bolzani alerta para a concentração dos laboratórios no Sul e Sudeste. "Falta desenvolvimento homogêneo. É preciso fixar pessoas em locais onde a ciência é incipiente, como o Norte e o Nordeste", diz. "O grande desafio de explorar a biodiversidade da Amazônia é que não há gente lá."

Para o professor da Unicamp Fernando Galembeck, há outro problema: o processo de desindustrialização, que afeta tanto a pesquisa em química quanto a produção das empresas aqui instaladas. "Cada vez que um fabricante de brinquedos compra algo pronto da China em vez de produzir aqui, ele deixa de gerar emprego, de comprar matérias-primas, de inovar", diz. "Se a indústria química cresce, a economia de um país vai junto."

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