Gilberto Jr./AE
Gilberto Jr./AE

Por uma privacidade em boa companhia

Casa Cor. Tecnologia e ambientes que sobrepõem funções redesenham a geografia da casa

O Estado de S. Paulo,

21 de maio de 2011 | 16h00

Marcelo Lima / REPORTAGEM

Elisa Soveral/ PRODUÇÃO

Gilberto Jr e Zeca Wittner / FOTOS

 

Cena 1. Estamos há menos de uma semana da inauguração. No edifício sede da mostra, tudo está por acontecer. Em meio a monumentais atrasos, caixas que não param de chegar, poeira e muito barulho, os participantes do maior evento de decoração do País não dão mostras de desânimo. Debruçados sobre esboços e anotações, operários e decoradores trabalham sem trégua. Tudo ainda está em andamento. Difícil acreditar que ficará pronto a tempo. Mas há 25 anos tem sido assim. E há 25 anos tudo se transforma.

 

Cena 2. Faltam dois dias para a abertura de Casa Cor e a principal mostra de decoração do País já tomou corpo e forma. Claro que faltam alguns detalhes. Mas a sensação geral é de missão cumprida. Prontos, ou quase, 79 ambientes - entre dependências internas, jardins e construções autônomas- estão prestes a abrir suas portas. Convidada ilustre, a tecnologia, ou melhor, o seu impacto na decoração, promete marcar presença. E ocupar o centro das discussões.

 

"Trata-se de um setor em forte crescimento no mercado", declara, pragmático, o presidente de Casa Cor, Ângelo Derenze, que, este ano, sob inspiração do tema "Dia a dia com a tecnologia", antevê uma edição recheada de novidades. Isso nos quatro segmentos que compõem a edição 2011: Casa Cor, com seus interiores residenciais; Casa Hotel, apresentando suas suíte temáticas; Casa Kids, com foco voltado para ambientações infanto-juvenis, e Casa Talento, mostra dedicada à difusão de artistas emergentes. No total, são 106 espaços distintos.

 

A estrela da festa. Parte das comemorações dos 25 anos do evento, uma exposição pretende homenagear as personalidades da arquitetura e decoração que fizeram sua história (ver pág. 94), tendo como curadora a jornalista e arquiteta Olga Krell. Mas, ao que tudo indica, a tecnologia será a grande estrela da festa. "O público vai perceber que muitos recursos tecnológicos, antes restritos aos ambientes corporativos, já podem fazer parte da rotina dos lares brasileiros. Garantindo conforto, comodidade e, claro, preservação do meio ambiente", afirma Ângelo Derenze.

 

Em tempo, o tema da sustentabilidade permanece em pauta. Mas, até por sua estreita vinculação com a questão tecnológica, deve ser apresentada - espera-se- de forma menos superficial do que em edições recentes. Ocasiões nas quais o simples emprego de madeira de demolição, já configurava para alguns profissionais plena adesão aos ideais de preservação do planeta. "O que mais me atraiu neste projeto foi a possibilidade de transformar em luxo algo que certamente teria o lixo como destino", declara a arquiteta Brunete Fraccaroli, que resolveu ir mais fundo no assunto.

 

Assídua participante de Casa Cor, desde suas primeiras edições, em 2011 Brunete resolveu transformar sete contêineres náuticos em vias de desativação em um sofisticado espaço conceitual de 150 m². "Por dentro, procurei mostrar diversos usos para materiais sustentáveis: seja como móveis, revestimentos e até obras de arte", explica. Composta por LEDs, a iluminação artificial foi cuidadosamente planejada para incentivar a redução do consumo de energia. Como também a ventilação cruzada, propiciada por aberturas situadas em extremidades opostas da construção, pensada para resfriar naturalmente o ambiente, eliminando em parte o uso de climatização interna.

 

"O projeto pretende servir de inspiração para quem, como eu, busca um estilo de vida sofisticado, mais ainda assim afinado com a preservação da natureza", argumenta a arquiteta, que assina um dos seis anexos erguidos para receber a mostra.

 

Caso também, do arquiteto Roberto Migotto, que este ano retorna ao evento, com seu Concept Hall: um grande pavilhão metálico, construído em parceria com a fabricante de louças e metais sanitários Deca, apresentado como um espaço multiuso: um protótipo de uma unidade de habitação contemporânea, onde os diversos ambientes de uma casa tradicional convivem e se interpenetram. "Mas sem aquela atmosfera típica de SPA", diz Migotto.

 

Novos tempos. "Acredito que vivemos um momento de transição. Os recursos tecnológicos têm ajudado a redimensionar os ambientes domésticos", afirma a arquiteta Fernanda Marques, que vê com bons olhos a ideia de fazer diversas funções partilharem um mesmo espaço na casa. Caso, por exemplo, do tradicional living, com suas salas de estar e jantar separadas, que hoje divide a cena com a cozinha. Ou do dormitório, que, no limite, tem se interligado diretamente à área do banho.

 

"Meu projeto deste ano, o e.lounge, caminha nessa direção. Pode configurar um estar. Pode servir a uma reunião de negócios. Pode receber convidados para um jantar", conta Fernanda, que parece não estar sozinha em suas convicções.

 

De fato, por toda a Casa Cor, raros são os ambientes - de livings a cozinhas gourmets, de dormitórios a banheiros- que, guardadas as proporções, não façam da multiplicidade de usos uma profissão de fé. "Procurei compor espaços integrados, capazes de "conversar" entre si. A suíte, por exemplo, aparece integrada ao banho por meio de uma bancada, que, além de conter uma pia, funciona como cabeceira de cama", conta Jóia Bergamo, autora da Casa Primal. Um anexo criado pela decoradora para atender a um típico casal urbano: ao qual agrada receber e cozinhar. Tanto quanto dormir e fazer amor.

 

Privacidade compartilhada. Retrato de um momento no qual a tecnologia parece viabilizar uma espécie de privacidade conjunta - afinal, em um único ambiente, é possível hoje que uns façam suas refeições, outros desfrutem de seus seriados preferidos, enquanto terceiros naveguem alegremente pela rede a bordo de seus iPads - Casa Cor 2011 acerta ao propor uma reflexão sobre o tema, franqueando ao público alternativas de uso para este novo e híbrido espaço doméstico.

 

Algo muito mais salutar do que a prática - felizmente em acentuado declínio - de se ignorar por completo este cenário de aceleradas transformações, reduzindo a tarefa de se desenhar interiores a um exercício pessoal de especulação estética. Um prazer sem dúvida. Mas ainda reservado a poucos. Como bem atesta o veterano Jorge Elias, um mestre inconteste do décor, em seu luminoso living . "Não tenho estilo e para mim ele não existe. Procuro trabalhar bem. Tudo mais é decorrência". Que o ouçam os que chegam: disso ele entende.

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