Portões do inferno foram roubados

Entre o Hannukah e o Natal, o letreiro na entrada do campo de extermínio de Auschwitz foi roubado. A polícia polonesa recuperou-o e prendeu os ladrões, que aparentemente tinham recebido uma encomenda do exterior. Lutamos para imaginar que tipo de ser humano gostaria de um objeto desse na sua coleção particular. Por todo a carnificina, escravidão e tortura ali perpetrados , Auschwitz continua sendo, para os europeus da minha geração, o símbolo da maldade humana.

Timothy Garton Ash, O Estadao de S.Paulo

26 Dezembro 2009 | 00h00

Este grotesco episódio encerra um ano em que as relações entre cristãos e judeus em geral, e cristãos poloneses e judeus poloneses em particular, mais uma vez se tornaram objeto de discussão. Os fantasmas do passado de uma Europa do Leste torturada fizeram muito alarde pelos corredores de Westminster, quando os conservadores anunciaram sua aliança no Parlamento Europeu com um grupo de partidos de direita, principalmente da Europa Central e do Leste, sob a liderança de Michal Kaminski, do Partido da Lei e da Justiça, da Polônia.

Na controvérsia que se seguiu, o autor e ator Stephen Fry declarou que "esta é uma história do catolicismo de direita profundamente perturbadora para aqueles que conhecem um pouco da história e lembram de que lado da fronteira estava Auschwitz". Um pouco da história. Culpar os poloneses católicos pelo campo de extermínio nazista em território polonês anexado pelos alemães, campo onde católicos poloneses também foram presos e mortos, é um absurdo tão grande que a observação da Fry sofreu uma avalanche de críticas; e ele, rapidamente, se desculpou.

Mas não se trata apenas de insensatez de um cidadão inglês. Ao ver uma notícia na TV alemã sobre o julgamento de John Demjanjuk, há algumas semanas, fiquei estarrecido quando o apresentador descreveu Demjanjuk como um guarda "do campo de extermínio polonês de Sobidor". Que tempos são estes, quando uma das principais tevês da Alemanha acha que pode descrever campos nazistas como "poloneses"? Pela minha experiência, a equação automática da Polônia com catolicismo, nacionalismo e antissemitismo - e assim culpá-la pela associação com o Holocausto - é uma ideia que ainda persiste na Europa Ocidental e na América do Norte. Essa acusação coletiva não faz justiça aos antecedentes históricos. Nela não há lugar, por exemplo, para a incrível história de Witold Pileck, oficial polonês que foi preso voluntariamente em Auschwitz para descobrir o que se passava ali. Ele passou dois anos e meio no local, conseguiu passar clandestinamente informações para fora do campo e depois escapou.

Lutou no levante de Varsóvia contra os nazistas e sobreviveu aos últimos meses no campo de prisioneiros de guerra, para depois ser preso e torturado pela polícia secreta comunista na Polônia ocupada pelos comunistas, sendo executado em 1948.

Esses estereótipos provocam uma reação defensiva da parte dos poloneses, o que dificulta sua reconciliação com a história inquietante do antissemitismo católico e polonês (ele não está confinado à direita; o Partido Comunista polonês foi abalado por uma notória campanha antissemita em 1968). Especialmente depois que a Polônia reconquistou sua liberdade, esse processo de reconciliação com o passado estavam bem encaminhado. No início desta década, a descoberta por um historiador da carnificina de judeus na pequena cidade polonesa de Jedwabne pelos aldeões vizinhos católicos, em 1941, desencadeou o que o escritor judeu Konstanty Gebert qualificou como um debate "impressionantemente profundo e corajoso", acrescentando que "o país sofreu uma transformação moral importante".

Não poupo ninguém nas críticas à nova aliança dos conservadores no Parlamento Europeu, mas o veredicto político tem de ser separado do moral e do histórico. A linguagem partidária, com suas frases pré-fabricadas e meias verdades simplistas, é tão pateticamente inadequada aos terrores de Auschwitz e o heroísmo de um Pilecki, que só o fato de usar essa verborragia pode ser considerado como um sacrilégio.

Há um julgamento político, para o qual a questão envolvendo aquilo que um oportunista de direita como Kaminski disse quando se debateu a carnificina em Jedwabne é uma consideração relevante, embora subsidiária. Existe também um julgamento histórico, que os estudiosos, com suas avaliações crescentes sobre a real complexidade do Leste Europeu e a história judaica, estão nos possibilitando fazer. E há ainda o julgamento legal, que deve ser aplicado a todos aqueles que cometeram crimes contra a humanidade.

Mas o fato é que todos nós seguimos esse caminho, apenas sem esses extremos. O que não quer dizer simplesmente que alguns são bandidos e outros heróis. Ocorre que esse mesmo homem ou mesma mulher podem se comportar horrivelmente num determinado momento, e magnificamente em outro. Podemos chegar mais baixo do que o nível dos macacos, ou nos elevarmos acima dos anjos. Somos fracos; somos fortes. Assumimos a culpa. Pedimos misericórdia. Depois envelhecemos, adoecemos e morremos.

*Timothy Garton Ash é escritor britânico e professor na Universidade de Oxford

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