Português é a língua que se fala na aula de inglês

Estudo de caso da Unesp aponta limitações do ensino do idioma na escola pública

Luciana Alvarez, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2010 | 00h00

A aula é de inglês, mas só se fala em português. As turmas são grandes demais, o professor é mal preparado e todos ficam desmotivados. A situação, que não promove nenhum aprendizado, foi constatada em um estudo de caso feito por uma professora da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) no interior do Estado, mas a mesma combinação se repete em aulas de inglês de diversos colégios, em especial da rede pública.

A pesquisa, dissertação de mestrado de Ana Lúcia Ducatti, não traz conclusões gerais sobre como está o ensino da língua inglesa nas escolas, mas traça um retrato preocupante dos problemas enfrentados em sala. Ela analisou 20 aulas de uma professora da rede municipal de São José do Rio Preto com mais de dez anos de experiência. Formada em Letras, Maria (nome fictício) não pode ser identificada por razões éticas.

O estudo mostrou que o ensino é focado na gramática e não no uso do idioma. A oralidade em inglês é ausente. "Não se pode constatar o uso comunicativo e espontâneo da língua-alvo. Maria ministra a aula quase toda na língua materna, introduzindo o inglês apenas ao ler em voz alta", diz a dissertação.

A prática em sala de aula se dá tanto pela proficiência oral limitada da professora estudada - em um teste aplicado, ela estava em nível intermediário na parte oral -, quanto pelo contexto social. "Um dos motivos pelos quais ela não trabalha a oralidade é o fato de a maioria de seus alunos não manifestar interesse em se envolver com o que está sendo dado em sala", diz Ana Lúcia.

A ideia de estudar o tema surgiu quando Ana Lúcia, até então professora de inglês apenas em escolas de idioma, foi contratada para dar um curso de capacitação na rede pública. "Percebi que os professores estavam insatisfeitos com a própria prática e com suas limitações na expressão oral", conta. "A falta de fluência afeta a qualidade da aula."

Sem preparo adequado, em geral os professores de línguas se sentem inseguros e preferem dar aulas apenas de português. "O inglês fica como segunda opção dos professores de português, para preencher buracos na grade", conta a pesquisadora. Maria diz que, com isso, se sente solitária. "Em toda minha vida como professora de inglês sempre me senti sozinha pela falta de interesse dos professores com os quais convivi e, em geral, pouco pude trocar ideias ou tirar dúvidas", afirmou a professora de inglês em entrevista à Ana Lúcia.

Expectativas. Durante o estudo, a pesquisadora também constatou a baixa participação dos estudantes, apesar de a maioria deles terem dito que consideram o inglês importante para o mercado de trabalho. "As salas de aula são numerosas e o material didático, inadequado. Com tudo isso, a professora não tem expectativas e os alunos também não", disse Ana Lúcia.

Segundo Marília Mendes Ferreira, professora de inglês da Universidade de São Paulo (USP), uma das principais barreiras para o aprendizado do idioma nas escolas regulares é exatamente a crença de que não se vai aprender. "Esse discurso já ficou cristalizado. Pais, professores e alunos já pressupõem que não se aprende", afirmou.

Marília reconhece que uma escola pública não tem como dar a fluência oral no inglês, mas defende que isso não invalida o ensino do idioma. "Não podemos usar uma escola livre de línguas como parâmetro", diz. "Mas no colégio você tem espaço para discussões sobre as diferenças culturais e pode trabalhar a escrita. Comunicação não é só falar."

PARA ENTENDER

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação obriga as escolas a oferecerem o ensino de língua estrangeira a partir da 5.ª série (ou 6.° ano) duas vezes por semana. Muitas escolas particulares introduzem o idioma no currículo já no jardim de infância. O Ministério da Educação não aplica nenhuma avaliação sobre a qualidade do ensino de língua estrangeira oferecido no País. Este ano, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) vai incluir o inglês pela primeira vez.

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