Porumboiu e o desafio de fazer filmes autorais na Romênia

O diretor do premiado A Leste de Bucareste fala sobre o novo Polícia, Adjetivo

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

20 de novembro de 2009 | 00h00

Corneliu Porumboiu revela, numa conversa por telefone, de Bucareste, que começou a escrever Polícia, Adjetivo tendo em mente um desfecho diferente daquele que o público vai ver, no filme que estreia hoje. Polícia, Adjetivo conta a história de Christi, um policial encarregado por seus superiores de vigiar - e prender - um garoto que está sendo acusado de oferecer haxixe aos colegas. Christi entende que se trata de um ato de rebeldia, mais do que de tráfico. Ao mesmo tempo, está certo de que a lei vai mudar e não quer destruir o futuro do jovem, com o qual, no fundo, se identifica. Mas seu superior lhe cobra uma atitude. "Muitas vezes, o personagem toma as rédeas do próprio destino", diz o cineasta, que recebeu a Caméra d"Or, para melhor filme de diretor estreante em Cannes, 2006, por A Leste de Bucareste.

Em primeiro lugar, deixe-me dizer-lhe que eu integrava o júri que lhe outorgou a Caméra d"Or. Qual foi o efeito do prêmio para sua carreira?

A Romênia nunca teve uma tradição cinematográfica muito forte, embora tenhamos diretores importantes, como Lucien Pintilié. Durante a ditadura de Ceaucescu, tínhamos uma produção regular, mas a censura do regime era muito rígida. Com o fim do comunismo e a abertura do mercado, Hollywood passou a ocupar todos os espaços. O público romeno prefere filmes de ação norte-americanos. Nossos filmes, não falo apenas dos meus, são críticos, autorais. Tendem a fazer mais sucesso fora do que dentro do país. Havia feito curtas, mas só consegui finalizar A Leste de Bucareste com muito sacrifício. A Caméra d"Or salvou minha carreira. Temos uma carteira de produção, na qual um fundo do governo entra com 50% do custo. Os outros 50% eu tenho de bancar. A projeção de A Leste de Bucareste me valeu parcerias no estrangeiro, principalmente na França.

Como surgiu a ideia de Polícia, Adjetivo? A história é real?

Não no sentido de eu ter-me inspirado em fatos, mas ela é real, sim. A inspiração me veio de duas fontes. Havia lido sobre a incidência de drogas entre escolares e adolescentes. Um amigo policial também vivia me expressando suas dúvidas existenciais. Para quem viveu numa ditadura, onde a repressão era muito forte, a questão da consciência é decisiva. Deveria ser para todo o mundo, mas tenho a impressão de que, para a gente, é mais. Como artista, gosto de refletir sobre o comprometimento ético. A questão dele era mais urgente, sempre confrontado com o certo e o errado, o possível e o desejado. Comecei a ligar dois personagens fictícios, o policial e o jovem. O filme nasceu assim.

Como você chegou ao final? O desfecho é algo que se espera com certa angústia. Já o tinha em mente?

Havia feito pesquisas e me documentado. Comecei a escrever cheio de ideias pré-concebidas, mas, à medida que os personagens ganhavam vida no meu imaginário, ficava cada vez mais difícil adequá-los ao que havia planejado. Pode parecer um clichê, mas os personagens, muitas vezes - e eu diria que quase sempre - terminam por assumir as rédeas do próprio destino.

Como foi sua formação?

Vim para Bucareste para estudar, mas no princípio não pensava em ser cineasta. O cinema veio mais tarde. Filmar pode ser difícil, penoso, mas é muito gratificante. Quando você escreve, seja um roteiro ou um romance, o leitor é livre para imaginar. O cinema é concreto, você vê a imagem, a pessoa. Isso pode dar um sentimento de onipotência. O diretor é um pouco Deus. Você precisa ter consciência do que faz.

Você falou em Lucien Pintilié, um cineasta reconhecido. Mas você pertence a uma geração aclamada em todo mundo. Christian Mungiu, Christu Puiu. Só em Cannes, vocês ganharam a Caméra d"Or, a Palma de Ouro, o prêmio da crítica, com filmes como o seu primeiro e também Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias e A Morte do Senhor Lazarescu.

E foi muito importante, acredite. Apesar disso, não formamos um movimento. Nos conhecemos, ocasionalmente nos encontramos e discutimos cinema, mas não criamos nenhum Dogma. Ou seja, não existe um projeto conjunto, um programa comum. Cada filme é um filme, mas, quando se viveu numa ditadura, é normal que os diretores queiram dar seu testemunho, falar de problemas que afligem as pessoas, sejam intelectuais ou homens comuns. Acho que o comprometimento com a realidade é que une nossos filmes.

Polícia, Adjetivo parece mais grave, mas, como A Leste de Bucareste, não deixa de ter humor.

Nunca pensei no filme como comédia, mas acho que é um traço do meu temperamento, ou, quem sabe, do romeno em geral. Não se sobrevive a uma ditadura tão feroz sem a capacidade de rir da própria desgraça.

O ator é muito bom.

Dragos (Bucur) já estava em A Leste de Bucareste. Ele faz teatro, possui técnica, mas sabe o tom certo para representar no cinema.

Veja trailer de:

Polícia, Adjetivo

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