Posição de Obama em relação ao aborto preocupa Vaticano

A administração de Barack Obama vem sendo pressionada pelo Vaticano, em reuniões privadas, diante da decisão do presidente americano de introduzir na agenda política do país temas polêmicos como o casamento gay, o aborto, as pesquisas com células-tronco e até mesmo a situação dos imigrantes.

CIDADE DO VATICANO, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2013 | 10h16

Documentos sigilosos do Vaticano obtidos pelo Estado revelam a preocupação do papa Bento XVI em sua relação com os EUA. Segundo os documentos da diplomacia da Santa Sé, a relação entre o Vaticano e Washington é considerada como estratégica e as ações de política externa de Obama foram consideradas dentro da Cúria como "impressionantes".

Mas isso não faz com que o Vaticano esteja confortável com as decisões de política interna. A estratégia da Santa Sé para atacar Obama e ao mesmo tempo mantê-lo como aliado em temas globais foi a de delegar as críticas à Igreja Católica Americana, que passou a liderar as queixas.

"Obama está sendo muito pressionado pelos católicos nos EUA. Não há dúvidas disso", declarou o padre Thomas Reese, um dos principais vaticanistas americanos. "Há muito temor de que os EUA se transformem em uma nova Europa", disse, em referência à queda acentuada dos valores católicos entre a população e também nas leis.

Num telegrama da diplomacia americana divulgado pelo grupo WikiLeaks, diplomatas revelam ao presidente Obama que Bento XVI "genuinamente gosta dos EUA e admira o modelo de secularismo" no país. Mas não deixaria de atacar projetos para ampliar o aborto, pesquisas com células-tronco e mesmo imigração. "Internacionalmente, o Vaticano vai se opor de forma vigorosa à defesa do governo dos EUA em liberalizar o aborto, tornando-o um direito reprodutivo."

Durante sua viagem aos EUA, Bento XVI ainda se reuniu de forma privada com a então presidente da Câmara de Deputados, Nancy Pelosi, e chamou a atenção para as "exigências da lei moral natural", numa referência aos projetos de lei sobre aborto e pesquisas com células-tronco.

Escândalos. Os documentos mostram que os desafios também são internos para a Igreja nos EUA. Casos de pedofilia teriam tido um forte impacto na imagem dos cardeais, bispos e padres católicos nos EUA, fortalecendo a fuga de fiéis. Os escândalos de pedofilia obrigaram a instituição a pagar milhões de dólares em indenização, com repercussões financeiras importantes para a Igreja. No Vaticano, documentos apontam que a Santa Sé sabe que, só ao demonstrar que está punindo os envolvidos, poderá reverter essa imagem.

Outro desafio é a queda no número de fiéis. Há 20 anos, 35% dos americanos eram católicos. Hoje, esse número caiu para 25% e só não é menor graças aos imigrantes latino-americanos.

Segundo os dados oficiais, um em cada três americanos que foi criado com uma educação religiosa abandona a Igreja quando adulto. Sem a população hispânica, a taxa de católicos não chegaria hoje a 20% nos EUA. / J.C.

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