''Posso dividir a história da minha vida em antes e depois do Boris''

DEPOIMENTO[br][br]Thays Martinez[br]Advogada e fundadora do Instituto Iris

, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2010 | 00h00

Aos 4 anos, perdi a visão, o que é para muitos o sentido mais importante. Mas, falando muito francamente, não penso dessa forma. Se tivesse de dividir minha vida em dois períodos, não seria antes e depois dessa perda, até porque sempre valorizei mais os ganhos. Posso dividir minha história em a.B. e d.B. - antes e depois do Boris.

Eu o conheci aos 26 anos, mas o esperava desde os 7, quando uma professora me contou que nos Estados Unidos existiam cães que ajudavam as pessoas cegas. Desde aquele dia, soube que teria um cão-guia. Esperei 20 anos, mas valeu a pena.

Com Boris, a vida se revelou mais leve e muito mais divertida. Ele me trouxe segurança e independência e me ensinou o verdadeiro significado da palavra amizade. Também me fez ver que ser feliz é valorizar coisas simples, como poder sair para comprar meu sorvete favorito sem depender de outras pessoas. Ou ainda sentar no banco da nossa praça preferida e ficar ouvindo o som de suas patas cheias de energia pisando velozes nas folhas secas.

Com ele, ousei correr e não me preocupava com orelhões, buracos, galhos de árvores. Era um cão genial, de personalidade forte. Mudamos muitas vezes de emprego e fomos morar sozinhos - ele me ajudou a escolher o apartamento. Aprontava das suas, mas só o suficiente para dar graça à vida - certa vez, simulou desviar de muitas árvores só para ganhar "biscrocs".

Também enfrentamos juntos uma batalha judicial contra o metrô. Ele estava comigo na sala de julgamento quando fiz nossa defesa no tribunal e se tornou símbolo de cidadania.

Em 2008, teve de se aposentar e foi muito difícil para nós. Mesmo durante seu merecido descanso, passeando à paisana, era reconhecido na rua. Em outubro de 2009, aos 11 anos, ele partiu desse mundo, mas deixou muitas lições que coloquei no livro que acabo de escrever. Deixou também muitas recomendações ao Diesel, um labrador adorável que me guia hoje com amor e dedicação.

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