Pouca gratidão

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

* Benjamin Rosenthal e Wagner Iglecias, O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2014 | 15h20

De acordo com o relatório Ageing in the 21st Century, da HelpAge em parceria com a ONU, 1 em cada 9 pessoas no mundo tem mais que 60 anos e essa razão mudará para 1 em cada 5 em 2050. O Brasil vai também deixando de ser um país jovem. Segundo o IBGE, já em 2030, o número de pessoas com mais de 60 anos será maior que o número de pessoas com menos de 14 anos. O envelhecimento da população é um fenômeno global e vai afetar indivíduos, famílias e governos.

Os desafios para o Brasil são enormes e precisam ser tratados desde já. Nosso processo eleitoral trata de temas que foram sendo consolidados como importantes ao cenário nacional nos últimos 20 anos: estabilidade econômica, políticas públicas para aumentar a inclusão social, corrupção e, em grau menor, sustentabilidade e direitos humanos. Mas o envelhecimento tem passado quase ao largo do debate, especialmente em três aspectos: previdência, saúde e inclusão social.

A Previdência Social no Brasil é universal. Trata-se de um dos sistemas de proteção à renda do idoso dos mais amplos no mundo. Por conta disso ele é caro e precisa ser sustentado pela mão de obra ativa. O Brasil tem dois grandes desafios nessa área: construir com a sociedade um pacto no qual os trabalhadores entendam que precisam trabalhar mais, já que estão vivendo mais (não faz muito sentido hoje em dia uma pessoa com 55 anos de idade estar aposentada, e trabalhar é ótimo para a qualidade de vida no processo de envelhecimento), e precisam contribuir para o sistema, ajudando quem já passou para a inatividade. Isso passa por um acordo com a sociedade e pelo Congresso. Nenhum dos três candidatos com chances de vitória trouxe, de fato, essa pauta para a discussão, limitando-se a pequenos parágrafos em seus planos, formais ou informais, de governo.

A Saúde necessitará de mais recursos. Parte disso já foi endereçado na distribuição dos royalties do pré-sal. Falava-se em 100% para a Educação, mas alguém deve ter lembrado aos congressistas que se crianças e jovens precisam estudar, os mais velhos terão que ser bem atendidos pelo SUS. Os custos com tratamentos após os 60 anos de idade crescerão e nosso sistema de saúde precisa ser preparado para esse momento. Falamos de mais médicos especializados nas doenças do envelhecimento, de mais hospitais, de mais cuidados em casa, de auxílio à participação da família nos cuidados (será comum indivíduos na terceira idade cuidando de pais e tios na 4ª idade). Não encontramos sombra desse tema no debate eleitoral ou nas propostas dos candidatos.

Finalmente, o Brasil precisa incluir o idoso na sociedade e não alijá-lo das instituições, do trabalho e da vida social. Lazer e mobilidade urbana precisam ser pensados para os mais velhos. A inserção profissional também é necessária. É normal pessoas na faixa dos 70 anos quererem trabalhar, mas não encontrarem oportunidades - sendo que energia e experiência há de sobra. Os idosos acumulam um saber valioso e podem desempenhar muitas funções. Cuidadores, participantes nos processos eleitorais, empreendedores, mentores, voluntários são apenas alguns exemplos de possibilidades óbvias. Isso inclusive livra os mais jovens para desempenhar outras funções. A maior atuação do idoso pode trazer um bônus de desenvolvimento, e não somente um ônus ao sistema de saúde e previdência.


Garantia de renda, saúde e papéis sociais - esses são elementos constituintes do Global Age Watch Index de qualidade de vida no envelhecimento. Uma sociedade que não liga para seus idosos é uma sociedade pouco grata aos que a construíram. Não estamos vendo essa gratidão sequer nos nossos líderes e em seus planos de governo. Eles, por omissão, incorrem involuntariamente em um dos mais tristes sintomas do ageismo (o preconceito com o idoso) - a sua invisibilidade social.

* Benjamin Rosenthal, administrador, é professor da FGV-SP. Wagner Iglecias, sociólogo, é professor da USP

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