Pouco-caso com a educação

Se o déficit de professores cresceu, e tanto, na rede municipal, o responsável é o governo Haddad, que não soube planejar suas ações

O Estado de S.Paulo

31 Julho 2016 | 03h09

A educação é mais um setor no qual o desempenho do governo de Fernando Haddad fica muito aquém do que a população da capital tinha o direito de esperar – como mostra reportagem do Estado sobre o déficit de professores na rede municipal –, tendo em vista as promessas feitas pelo prefeito para se eleger. Com a agravante de que a educação é elemento da maior importância do “social” que o seu partido, o PT, gosta de colocar como marca de suas administrações. Mas o PT e os petistas, como se constata mais uma vez, estão muito longe de ser fiéis ao que pregam.

De 1,8 mil professores, quando começou o atual governo em janeiro de 2013, o déficit subiu para 4,7 mil, hoje, quando o mandato de Haddad está na reta final, de acordo com dados oficiais, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação. Um aumento de nada menos do que 161%. É nas etapas finais do ensino fundamental que essa carência é maior – do 6.º ao 9.º ano –, nas quais faltam 3,1 mil profissionais. A situação não é boa também nas escolas de educação infantil (CEIs), que precisam de mais 1.393 professores.

Outro aspecto importante do problema é que é na periferia, onde predomina a população de baixa renda que só tem condições de acesso ao ensino público, que ele mais se faz sentir. Em Campo Limpo, na zona sul, por exemplo, faltam mil professores; em Pirituba, 564; e em Capela do Socorro, 514.

A consequência desse déficit que se avolumou na administração Haddad não é só a dificuldade de acesso das crianças e adolescentes à rede municipal. Para que esse acesso seja possível, sobrecarrega-se o trabalho dos professores, com classes com alunos em número superior ao recomendável. Como diz uma professora que prefere manter o anonimato, a contratação de profissionais temporários não resolve: “Tem professores temporários, mas quando um sai de licença e outro falta alguém acaba sobrecarregado”. Assim, a qualidade do ensino é que fica comprometida.

As explicações da Secretaria Municipal da Educação não convencem. Uma delas é que a ampliação das vagas na rede – com a construção de novas escolas e o aumento do número de classes nas já existentes – fez crescer muito, é claro, a demanda por professores. Outra é que aumentou o número de professores aposentados e exonerados. O de aposentados foi de 2,3 mil em 2014 e de 2,1 mil em 2015, em comparação com 1.197 em 2012, antes da posse de Haddad. Foram exonerados 2,5 mil professores no atual governo.

Esses são números que realmente impressionam. Mas só até quando se olha para outro lado da questão, para o qual chama atenção a professora Maria Márcia Malavasi, da Faculdade de Educação da Unicamp: “Se houve aumento de unidades, a Prefeitura deveria ter planejado as ações para não deixar os alunos sem professores”. O mesmo pode ser dito, ainda com mais razão, a respeito das aposentadorias e exonerações de professores, porque elas são perfeitamente previsíveis.

Se o déficit de professores cresceu, e tanto, na rede municipal, o responsável é o governo Haddad, que não soube planejar suas ações. Por incompetência ou desleixo, ou os dois. Também é uma forma de fugir do problema dizer que desde 2013 a Prefeitura nomeou 17 mil profissionais – entre professores, coordenadores pedagógicos e auxiliares técnicos – para o setor educacional. Muito bem, mas isso não elimina o fato de que aquele déficit cresceu 161%.

O governo diz que nomeará 1.400 professores aprovados em concurso no próximo mês. É preciso lembrar, quanto a isso, que o presidente do Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo (Sinpeem), Cláudio Fonseca, já vem pressionando a Prefeitura a tomar essa medida desde a realização do último concurso, em 2015. Por que só agora?

Haddad pode tentar impressionar o eleitorado com essas nomeações, mas a verdade é que aquele déficit ficará como demonstração de seu pouco-caso com a educação.

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