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Valor da tecnologia de ponta e alta taxa de importação atrapalham o deficiente, mas isso aos poucos começa a mudar

16 Junho 2008 | 00h00

Quem acompanha o jornalista Jorge Kajuru pela TV deve ter estranhado os óculos escuros que ele tem usado. De cara, fica-se com a sensação de que ele está fazendo alguma graça. Mas, por trás daquelas lentes, o polêmico jornalista pode estar lendo uma mensagem de texto ou voz deixada em seu celular. Detalhe: enquanto apresenta seu programa. "O (José Luiz) Datena sempre me liga corrigindo algo que falei ao vivo. Esses óculos são o ponto eletrônico dos amigos", brinca. Kajuru é cego do olho direito, em razão de um deslocamento de retina. Do esquerdo, tem somente 30% da visão, fruto de diabete. Recentemente ele foi para Houston (EUA) tentar fazer a última cirurgia para corrigir o deslocamento. Os médicos acabaram recomendando que ele comprasse esses óculos da Oakley (com memória de 10 GB), que ele deixa sincronizado com seu celular e toca-MP3. Pelas lentes do acessório , o jornalista vê vídeos, lê livros eletrônicos e usa o telefone móvel por comando de viva-voz. "Para ler um texto antes eu tinha de deixá-lo no computador com o corpo 32", diz. O gadget custou cerca de US$ 1,3 mil. Um valor inacessível para o bolso da maioria dos brasileiros. Deficientes, nem se fala. De acordo com a ONU, 82% das pessoas com deficiência vivem abaixo da linha da pobreza. Isso nos países em desenvolvimento. São três os fatores que fazem os aparelhos feitos para pessoas com deficiência custarem tão caro. Para começar, trata-se de tecnologia de ponta, do que há de mais moderno no mercado – o que explica o investimento. "O barato pode sair caro. A qualidade é tudo para a gente, pois a minha deficiência é o meu 100%", justifica Antonieti Bernardes, que possui 40% da visão só no olho esquerdo. Em segundo lugar, os impostos. A maioria dos eletrônicos topo de linha é importada. "A taxação de impostos é muito alta. O preço de um aparelho chega a dobrar quando chega ao Brasil", diz Guilherme Lira, da Tec Assistiva, uma empresa que comercializa produtos nacionais e internacionais voltados para o deficiente e idoso. Segundo Fernardo Ruibal Solla, diretor de negócios da Techaccess, o Brasil é um dos poucos países a taxar esse tipo de produto. "Nos Estados Unidos e na Europa não cobram." Por fim, entra o fator de que a maioria desses aparelhos não é feita em grande escala, e alguns até são customizados – vide a cadeira de rodas de US$ 30 mil de Marco Antonio Pellegrini. Então o que acontece com os deficientes que não têm como pagar por essas tecnologias ? "Usamos o software pirata, assim como muita gente faz com o Windows", ri o deficiente visual Marco Antonio de Queiroz, o MAQ. Como exemplo, ele cita o Jaws, software leitor de tela para, veja só, o Windows. "Sua versão demo só pode ser usada umas 50 vezes e a oficial é muito cara. As melhores opções custam mais de US$ 1 mil", diz. Existem alguns programas gratuitos na web, porém, e que estão em desenvolvimento constante. MAQ elogia o leitor de tela australiano NVDA, um software livre que tem até versão em português. Também é grande o número de desenvolvedores brasileiros que trabalham para fornecer, na faixa, aplicativos para quem tem algum tipo de deficiência (leia na página 10). Outra maneira é a realização de parcerias entre empresas e quem desenvolve esses softwares especiais. A Vivo lançou um modelo do aparelho Nokia E65 que já vem com o Talks, um programa de viva-voz utilizado por cegos. Fabricado pela americana Nuance, custa R$ 730 originalmente. Os bancos Real e Bradesco têm parceria com a empresa Micropower, que produz o Virtual Vision, um leitor de tela nacional. Clientes desses dois bancos têm direito a ganhar esse programa. "Devido ao alto preço é mais viável para uma empresa comprar esse tipo de tecnologia do que para uma pessoa comum", justifica Bernardes, que trabalha na Laratec, unidade de negócios da ONG Laramara. Devido ao limitado mercado consumidor, muitos fabricantes focam seus produtos para deficientes apenas para o mercado corporativo. Daí a importância da Lei de Cotas (leia página anterior). DIA-A-DIA Mas não são apenas os programas especiais que podem ser benéficos a pessoas com deficiências. Tecnologias presentes no cotidiano das pessoas também. Um exemplo recente é o 3G, a terceira geração de internet banda larga via rede celular. A teleconferência – quando duas pessoas se comunicam via videochamada – é uma solução para surdos e mudos falarem ao celular. No filme Babel (2006), a surda-muda Cheiko Wataya aponta a câmera para seu rosto e conversa pela linguagem de sinais com suas amigas. Os sistemas operacionais da Microsoft e da Apple também trazem ferramentas de acessibilidade. No caso do Windows, é só entrar em Programas / Acessórios / Acessibilidade. Pode-se alterar o tamanho da fonte de letras, diminuir ou aumentar a iluminação da tela e modificar algumas funções do teclado. Também se encontram teclado e lupa virtuais, além do Narrator, que é um leitor de texto próprio. Para quem usa Mac, clica-se no logo da maçã no topo do lado esquerdo da tela. Daí é só entrar em Preferência do Sistema / Sistema / Acesso Universal para configurar o micro de acordo com suas necessidades especiais. B.G. e G.M.

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