Pregador do Vaticano pede desculpa e afirma que papa desconhecia sermão

Pregador do Vaticano pede desculpa e afirma que papa desconhecia sermão

O frei Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, pediu desculpa pela comparação que fez entre as reações aos escândalos de pedofilia na Igreja Católica e a perseguição sofrida pelos judeus. Em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera publicada ontem, ele se disse arrependido e afirmou que não teve a intenção de "ferir as sensibilidades nem de judeus nem de vítimas de pedofilia."

CIDADE DO VATICANO, O Estadao de S.Paulo

05 Abril 2010 | 00h00

A polêmica declaração foi feita diante do papa Bento XVI durante a homilia da missa de Sexta-Feira Santa. O frade franciscano, no entanto, garantiu que o pontífice não tinha conhecimento do que seria dito. "O papa não inspirou (o sermão) e, como todos os demais, ouvia pela primeira vez as palavras que pronunciei."

Na sexta, após a missa, o porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, divulgou uma carta informando que o texto de Cantalamessa expressava uma opinião pessoal e não era "uma declaração oficial do Vaticano". Diversas entidades judaicas expressaram repúdio às palavras.

Na entrevista, Cantalamessa disse que as declarações que leu eram de uma "carta de solidariedade", para o papa e a Igreja, recebida de um amigo judeu. Segundo o frei, suas intenções eram "totalmente amistosas". "Se tivesse imaginado que provocaria tal polêmica, jamais teria tornado pública (a carta)", afirmou.

O frade, de 75 anos, que ocupa o cargo de pregador do Vaticano desde 1980, disse ainda que a ideia do sermão não era comparar as investigações de casos de pedofilia com a perseguição aos judeus, mas sim "denunciar um anticristianismo difundido em nossa sociedade ocidental."

O pedido de desculpas foi aceito pelo líder judeu Elan Steinberg, vice-presidente da Associação Americana de Sobreviventes do Holocausto e seus descendentes. "Agora que ele se desculpou e o Vaticano se distanciou daquelas declarações, o assunto está encerrado."

Solidariedade. Em um gesto inédito, fora da solenidade tradicional, as celebrações do domingo de Páscoa no Vaticano começaram com a leitura de uma mensagem de solidariedade do Colégio de Cardeais ao papa.

O cardeal Angelo Sodano disse que os fiéis não se deixam impressionar pela "fofoca mesquinha", em uma referência ao escândalo de pedofilia. "Todo o povo de Deus está contigo", afirmou. Bento XVI, porém, não fez referências ao assunto.

Mais tarde, ao pronunciar a bênção Urbi et Orbi (à cidade de Roma e ao mundo) na Praça de São Pedro, o papa afirmou que a humanidade vive uma profunda crise espiritual e moral.

Bento XVI condenou o narcotráfico na América Latina e pediu solidariedade com os povos do Haiti e Chile após os terremotos deste ano.

"Que a Páscoa de Cristo represente, para os latino-americanos e caribenhos que sofrem pelo perigo do recrudescimento dos crimes ligados ao narcotráfico, a vitória da convivência pacífica e do respeito pelo bem comum."

O papa ainda mencionou os conflitos na África, condenou a perseguição aos cristãos no Paquistão e no Iraque e reiterou o pedido de paz no Oriente Médio. Ele concluiu a cerimônia com a bênção Pascoal, proferida em 65 línguas. / AP, REUTERS e AFP

PARA LEMBRAR

Igreja teria silenciado sobre pedofilia

Em 2009, quatro padres irlandeses deixaram a Igreja sob acusações de pedofilia. Neste ano, surgiram centenas de acusações de abuso sexual contra menores cometidos por padres nas últimas décadas em vários países. Há denúncias de que, antes de se tornar papa, Bento XVI teria tido conhecimento de abusos nos Estados Unidos, mas preferiu não revelar o caso.

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