PANDORA FILMES
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Première Brasil mostra filmes que celebram força das mulheres

Diferentes em tudo, ‘Macabro’ e ‘Anna’ têm em comum o elogio do feminino e grandes atores e atrizes

Luiz Carlos Merten / RIO, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2019 | 06h00

Iniciada na terça à noite, fora de concurso, com Piedade, o longa de Cláudio Assis com Fernanda Montenegro, a Première Brasil exibiu naquela mesma noite o primeiro filme da competição do Festival do Rio. Macabro, de Marcos Prado, foi seguido na quarta por Anna, de Heitor Dhalia. Mesmo abrindo mão do ineditismo, a Première segue sendo a grande vitrine do cinema brasileiro. E começou muito bem, com filmes completamente diferentes, mas que dialogam muito bem entre si, graças a uma curadoria acurada.

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Macabro baseia-se numa história real, ocorrida nos anos 1990. O roteiro de Lucas Paraizo agrega elementos de outra história, mas essa é tão banal que se repete diariamente nas grandes cidades brasileiras. Uma operação do Bope na favela do Rio, o sargento responsável suspeita de um movimento e termina matando um trabalhador negro. Todo dia essas histórias enchem o noticiário da imprensa, nem viram mais manchetes. Para aliviar a barra, o sargento é enviado à frente de um pequeno grupo à serra do Rio para caçar dois irmãos, negros e fugitivos, que estão barbarizando na região. Estupram e assassinam mulheres.

O sargento é da área. Tem toda uma história passada. Conflitos familiares, ex-namorada. Percebe que a caçada está errada. Os crimes são cometidos por apenas um dos irmãos, e eles, desde crianças, sofreram com o racismo da comunidade. Em conversa com o repórter, o diretor Prado contou que o filme nasceu do seu encontro com a paisagem. Sua irmã tem casa na região serrana de Nova Friburgo, ele achava o local impressionante e aí descobriu as histórias. A caçada aos irmãos e o que pode ter sido a origem de tudo. Lá atrás, colonos suíços estabeleceram-se naqueles montes em que havia uma comunidade quilombola. Os negros foram sendo dizimados, à medida que as terras passavam para as mãos dos colonos brancos e europeus.

Um retrato do Brasil do ódio? Sem dúvida, e o policial do Bope não está ali para se regenerar. Revela-se, no limite, um anti-herói. Apesar do título, que promete terror, é thriller, e dos bons. Cinema popular, muito bem interpretado – por Renato Góes, desde logo candidato ao Redentor. Anna é outra coisa. Cinema de arte. Um diretor de teatro que quer montar Hamlet e busca sua Ofélia. Como anti-herói da cultura, o artista obsessivo quase destrói a garota. Heitor Dhalia fez um de seus melhores filmes. A jovem atriz, Bela Lindecker, é tão boa quanto Góes. Nos dois filmes, se existe uma saída para o universo violento e dominador dos homens, está na força das mulheres.

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