Presente de japonês

O Japão é obcecado pela comida e nada mais natural que comes e bebes virarem presente no país. Vale tudo. Um peixe em conserva, pedaço de presunto, a gelatina saborosa e enlatados entram no pacote. Desde que sejam bons

Thiago Minami, de TÓQUIO, ESPECIAL PARA O ESTADO,

29 Julho 2010 | 11h16

Arigatô. No Japão não há quem não goste de ganhar comida. É uma ótima escolha de presente

 

 

No meu último aniversário recebi de um amigo japonês um presente surpreendente: um presunto. Dois, aliás. Cada qual um pouco maior que um pão francês, com embalagem individual ostentando a estampa de uma das lojas de departamentos mais caras de Tóquio. Perece brincadeira? De jeito nenhum. A carne tenra e suculenta ficou guardada com carinho na minha memória - como costuma acontecer com todo bom presente.

 

O Japão é um país obcecado pela comida, como atesta o mais famoso guia de restaurantes do mundo, o francês Guia Michelin, que distribuiu mais estrelas em Tóquio que em Paris. Portanto, nada mais natural para os japoneses que oferecer às pessoas queridas um mimo para o paladar. Além disso, comidas e bebidas ocupam pouco espaço, o que se torna uma vantagem adicional para quem vive nas diminutas casas japonesas.

 

Além dos convencionais biscoitos, doces e chocolates, os japoneses gostam de presentear com frutas, sucos, peixes em conserva, massas, queijos, gelatinas, chás e até latas de óleo. Os alimentos costumam ser embalados em pacotes lindos, como objetos valiosos.

 

Só é preciso obedecer a duas regras. O presente tem de ser delicioso (mas não necessariamente caro); e não vale dar coisas feitas em casa, exceto para alguém íntimo. Essa é a garantia de que aquele bolo sem graça da tia não vai virar seu presente de aniversário por anos e anos seguidos.

 

Presentinhos comestíveis são vendidos em toda parte: estações de trem, lojas de conveniência, supermercados, farmácias, universidades, museus. Ninguém tem desculpa para deixar de levar uma coisinha, nem que seja comprada de última hora.

 

No Japão, chegar de mãos abanando à casa de algum amigo ou a uma festa é pura falta de educação. Isso vale para visitas e comemorações. Quando um novo vizinho se muda, faz parte da etiqueta bater na porta e se apresentar com uma gostosura nas mãos.

 

É de praxe também ter algo para amigos e colegas de trabalho ao voltar de viagem. Nesse caso a regra é ainda mais específica: os comes e bebes devem representar o local visitado. Se a viagem for pelo Japão mesmo, a tarefa fácil. Cada região do país tem seus produtos característicos, à venda nos pontos turísticos.

 

Quer saber o que comprar em Hokkaido? A província do norte do país é famosa pela produção de laticínios e os presentes normalmente são feitos com leite ou derivados. Já os de Okinawa, o paraíso tropical do arquipélago, levam frutas como manga ou abacaxi. Se o passeio for ao exterior, os guias de viagem já aprenderam onde encontrar as guloseimas que agradam ao paladar nipônico. Só no ano passado, recebi três vezes chocolatinhos com menta da loja de departamentos Harrods, em Londres.

 

Depois de muito dar e receber presentes comestíveis, muitos deles deliciosos, todo mundo acaba com um ranking pessoal dos preferidos. O meu, por enquanto, vem de Shimane, província vizinha a Hiroshima. E minha história com ele é um episódio divertido. Na volta de uma visita a um amigo que morava lá, deixei para a última hora a compra do presente para o pessoal de Tóquio. Pouco antes de embarcar, comprei uma caixa com bolinhos. Mas a viagem levou 12 horas de ônibus, a fome bateu e resolvi pegar um só para experimentar. Pão-de-ló úmido com sabor leve de chá verde, recheado com doce de feijão bem cremoso... Os bolinhos eram simplesmente deliciosos. Resultado: foi-se a caixa inteira.

 

* Colaborou Márcio Fukuda

 

 

 

 

 

 

 

 

BANANA-OURO

 

Sucesso. Presente símbolo de Tóquio caiu no gosto dos japoneses e hoje já há até quem copie

 

Qual a relação entre a cidade de Tóquio e a banana? Se sua resposta é "nenhuma", acertou. Mas graças a uma ideia estranha do empresário Atsushi Ogino, dono da loja de doces Gin no Budou, um minibolo esponja recheado de creme com gosto de banana virou o presente símbolo de Tóquio. A história começou em 1991, quando a capital carecia de um omiyague que a representasse e Ogino teve a ideia de usar a fruta muito apreciada no país para fazer seu Tóquio Banana Miitsuketa.

 

As vendas começaram no aeroporto de Haneda, que opera voos domésticos, e o sucesso levou o produto aos depatikas, os andares no subsolo das lojas de departamentos abarrotados de comidas e bebidas. Hoje há estabelecimentos inteiros só para o Tóquio Banana, que vende de 60 a 70 milhões de caixas por ano, incluindo receitas como chocolate e rocambole com gosto de banana. Já há imitadores: inúmeros doces feitos da mesma fruta, com nomes parecidos ao do original. Por que deu tão certo? O Tóquio Banana, criado quando o milagre econômico japonês chegava ao final, é bom e barato para os padrões nipônicos. Uma caixa com oito custa mil ienes (R$ 20).

 

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