Presidente da Nigéria pede união após distúrbios eleitorais

O presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, fez na segunda-feira um apelo à unidade após a eclosão de violentos distúrbios em redutos muçulmanos da oposição em reação à sua reeleição.

JOE BROCK, REUTERS

18 de abril de 2011 | 20h30

Igrejas, casas e lojas foram incendiadas e a Cruz Vermelha disse que os tumultos causados por seguidores do ex-governante militar Muhammadu Buhari deixaram muitos mortos, além de centenas de feridos e milhares de desabrigados.

"Temos de nos distanciar rapidamente dos campos de batalha partidária", disse Jonathan em discurso após ser declarado reeleito com 57 por cento dos votos, contra 31 de Buhari, cujo reduto eleitoral é o norte, de maioria muçulmana.

"Nenhuma ambição política vale o sangue de qualquer nigeriano", disse Jonathan, primeiro presidente nigeriano oriundo da região do Delta do Níger, onde está a maior parte da riqueza petrolífera do país.

Observadores disseram que essa foi a eleição mais limpa das últimas décadas no país, o mais populoso da África. Mas seguidores de Buhari acusaram o partido governista de cometer fraude, e rejeitaram o resultado.

A Cruz Vermelha nigeriana disse que as igrejas, mesquitas e casas foram queimadas na rebelião do norte do país, e que houve muitos mortos, embora seja impossível mencionar um número por enquanto. A entidade estimou que haja cerca de 300 feridos e 15 mil desalojados.

"Em Kaduna vimos corpos caídos à beira da estrada", afirmou Umar Mairiga, funcionário da Cruz Vermelha, à Reuters. "Duas mil pessoas estavam desalojadas só em um acampamento militar."

Autoridades em cinco Estados impuseram toque de recolher. Manifestantes atearam fogo à residência do vice-presidente Namadi Sambo, na cidade de Zaria. O corpo de um menino baleado no peito por uma bala perdida foi levado a uma delegacia de polícia.

"Eles destruíram nossos carros e nossas casas. Tive de correr para salvar a minha vida, e agora estou na casa do meu vizinho", disse Dora Ogbebor, moradora de Zaria, de origem sulista.

Nuvens de fumaça se erguiam ao céu em partes de Kaduna enquanto os manifestantes ateavam fogo a pneus. As forças de segurança dispararam para o ar e usaram gás lacrimogêneo para dispersar grupos de jovens que gritavam "Queremos Buhari."

A polícia disse que a violência foi política, sem caráter étnico ou religioso. Doze anos após o fim do regime militar, o Exército disse apoiar totalmente o governo e o Estado democrático de direito.

Buhari ainda não fez declarações públicas sobre a violência, apesar de apelos de embaixadas estrangeiras para que ele peça calma aos seus partidários.

O Congresso para a Mudança Progressista, partido do ex-general, disse em carta à comissão eleitoral que seus eleitores foram intimidados, que urnas foram adulteradas em redutos do governo, e que computadores foram configurados para tirar votos da oposição.

"O que está sendo exibido para o mundo não confere com as seções eleitorais, e sim com a sede estadual, onde acreditamos que muitas manipulações aconteceram", disse o partido oposicionista.

Nenhum partido de oposição subscreveu os resultados finais divulgados pela Comissão Eleitoral Nacional Independente, o que prenuncia uma possível contestação judicial.

(Reportagem adicional de Mike Oboh, em Kano; de Sahabi Yahaya e Joe Bavier, em Kaduna; de Austin Ekeinde, em Port Harcourt; de Chijioke Ohuocha, em Lagos; e de Joseph Penney, em Yenagoa)

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