Presidente do BC argentino renuncia

Redrado travava disputa com Cristina por reservas do banco

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2010 | 00h00

Após quase um mês de crise institucional, a presidente Cristina Kirchner obteve um trunfo político ontem à noite, quando o economista Martín Redrado - que desde 2004 ocupava presidência do Banco Central - anunciou sua renúncia ao cargo. O presidente do BC estava na mira de Cristina desde o dia 6, quando ela exigiu a renúncia de Redrado por ele ter rejeitado o plano do governo de usar US$ 6,5 bilhões das reservas do BC para o pagamento de parte da dívida pública que vence este ano. "Decidi me afastar de minhas funções de presidente do BC", afirmou Redrado em tom de desabafo em uma entrevista coletiva no Hotel Marriot Plaza no centro de Buenos Aires.

Na sequência, Redrado, fez uma série de críticas: "Chegamos a esta crise pelo avassalamento do governo sobre a autonomia do BC. O governo passa por cima do Parlamento. E na prática, o governo quer atropelar tudo!" Segundo Redrado, a crise começou porque tentou impor limites ao governo, referindo-se a sua recusa em ceder as reservas. "Durante muito tempo o governo tentou fazer coisas com as reservas do BC, como tentar comprar a (privatizada) Repsol YPF, planos de infraestrutura, pagar o Clube de Paris..."

Depois, Redrado ressaltou a instabilidade do BC ao longo da história argentina: "Sou o presidente número 55 em 70 anos de história... quase um presidente do BC a cada ano e meio!"

O confronto entre Redrado e Cristina desatou a maior crise institucional deste governo. A presidente demitiu Redrado por decreto, passando por cima do Parlamento, entidade que deve ser consultada em uma decisão dessa magnitude, segundo as normas do Banco Central. Mas o decreto foi suspenso por uma juíza federal.

Dias atrás uma comissão parlamentar havia iniciado uma avaliação do caso de Redrado. Estava previsto que a comissão anunciaria seu parecer na terça-feira. Mas, como o parecer tem o caráter de "conselho", Cristina deveria tomar a decisão final sobre o futuro de Redrado. Especulações indicavam ontem que a comissão emitiria uma posição desfavorável para o economista.

Analistas políticos destacaram ontem que o governo pretende humilhar Redrado, já que Cristina provavelmente não aceitará a renúncia dele. Isso ficou claro quando, durante a coletiva de Redrado, o chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, afirmou que a presidente esperará que a comissão anuncie seu parecer na terça-feira.

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