Presidentes são ''perseguidos'' pelo cinema

Roteiros usam filão do poder das mais diversas formas, do protesto ao filme de ação

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Caetano Veloso, que vem de formular duras críticas ao presidente Lula, já disse que vai ver O Filho do Brasil e poderá até chorar, porque é sentimental, mas isso não muda sua avaliação do político. O grande medo da oposição é que Lula, favorecido por um índice de aprovação sem precedentes - quase 80% -, consiga fazer sua sucessora, a partir do filme. É apostar cegamente no cinema.

Representações presidenciais se constituem em casos muitas vezes curiosos. Em 1939, John Ford fez A Mocidade de Lincoln, usando o político quando jovem para sugerir a construção do mito e, na verdade, mostrá-lo como idealização das melhores virtudes da nação. Ford, por certo, estava fazendo política, mas ninguém o acusou de ser partidário. Seu projeto era mais amplo - a própria construção da identidade nacional.

Depois disso, Hollywood volta e meia usou a figura do presidente como abstração, para configurar o herói - fosse Bill Pullman em Independence Day, de Roland Emmerich, ou Harrison Ford em Força Aérea Um, de Wolfgang Petersen. Zelito Viana foi mais elegante. O Juscelino de JK - Bela Noite para Voar, um recente (e interessante) caso brasileiro, transforma o ex-presidente num aventureiro sedutor em plena crise para derrubar seu governo. Tudo bem - trata-se de uma fantasia assumida. Críticos, Michael Moore, em Fahrenheit 11 de Setembro, e Oliver Stone, em W, investiram, cada um à sua maneira, contra o presidente George W. Bush, a quem acusavam de trair o ideário que Lincoln construíra na realidade e o cinema celebrara na ficção.

No Festival de Brasília, o diretor Fábio Barreto disse que seu filme é um melodrama e não um filme político como o de Oliver Stone. Seu enfoque é tão assumidamente melodramático que a relação principal do "herói" é com a mãe, Você sabe que mães sofredoras formam a base de melodramas clássicos, bastando citar Stella Dallas, a mãe redentora de King Vidor. Na fase "retirante" da família de Lula, O Filho do Brasil incorpora Graciliano Ramos - Vidas Secas, com um cachorro quase tão importante quanto Baleia. É a homenagem de Fábio ao pai, Luiz Carlos Barreto, que fez o clássico de Nelson Pereira dos Santos.

O filme é chapa branca? Essa acusação foi feita ao Robert Guédiguian de Le Promeneur du Champs de Mars, sobre o François Mittérrand final. O filme de 2005 valeu a Michel Bouquet o prêmio de melhor ator em Berlim. Se o objetivo de Guédiguian, socialista assumido, era favorecer a candidatura de Segolene Royal à presidência da França, não deu certo. Nicolas Sarkozy ganhou.

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