Presidiário mandava ordens por parentes

Traficante do Borel usava mulher e irmã para dar recados a comparsas

Pedro Dantas, RIO, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, afirmou que escutas telefônicas provam que presos do Presídio Federal de Catanduvas, no Paraná, usam parentes para repassar ordens aos comparsas. A revelação ocorreu após a Operação Família S.A., da Polícia Civil, que prendeu 23 pessoas ligadas ao traficante Isaías da Costa Rodrigues, o Isaías do Borel, um dos chefes do Comando Vermelho (CV). O secretário disse que a operação "quebrou paradigmas" e que atacará a "estrutura financeira dos líderes do quadrilha".

"De dentro dos presídios, de maneira confortável, eles passam aos familiares ordens para que os subordinados cometam crimes no Rio. De agora em diante, aqueles que empreendem ações criminosas no Rio terão suas famílias investigadas e presas", afirmou Beltrame. O Ministério da Justiça informou que vai averiguar a denúncia. De acordo com o Departamento Penitenciário Nacional, apenas durante a visita íntima os presos não são monitorados pelos agentes.

As investigações dos familiares de Isaías do Borel começaram em fevereiro de 2008. No mês seguinte, os policiais da 19ª Delegacia de Polícia da Tijuca (zona norte) conseguiram autorização judicial para as interceptações telefônicas e iniciaram várias operações nas favelas do Borel, Turano e Formiga, que seriam comandadas por Isaías e comparsas do Comando Vermelho.

A mulher de Isaías, Silvia Regina Rosário Rodrigues, e a irmã do traficante Emília da Costa Rodrigues foram flagradas dando ordens a traficantes. "As interceptações mostram a mulher e a irmã passando os recados e afirmando categoricamente que eram ordens dadas pelo presidiário. Não há dúvidas da participação de Isaías.Em vez de telefone, ele usa os familiares", disse o delegado titular da 19ª DP, Luís Claudio Cruz.

O delegado afirma que a quadrilha funcionava como uma "empresa familiar". "Após ser preso, Isaías escolheu o sobrinho (William Rodrigues Vieira, o Robocop, preso em agosto) para substituí-lo. Outros parentes atuavam como laranjas. Muitos nunca trabalharam e não têm condições de explicar o patrimônio", declarou Cruz.

A mulher de Robocop, Flávia Santos Oliveira, também foi presa ontem. A Justiça determinou o sequestro de um imóvel avaliado em R$ 150 mil na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca (zona norte), onde morava a família de Isaías. A polícia apreendeu três carros, quatro celulares, dois computadores, uma filmadora, documentos, joias, relógios, R$ 5 mil e uma pequena quantia em euros.

Os investigadores pretendem focar agora nos negócios do traficante, que seria dono de uma frota de vans para transporte alternativo nas imediações do Borel. "O patrimônio dele é muito maior do que o apurado até agora", avaliou o delegado, que não soube afirmar o faturamento da quadrilha.

Os presos e Isaías foram indiciados por tráfico, associação para o tráfico, financiamento de práticas ilícitas e formação de quadrilha. O secretário de Segurança Pública disse que o novo indiciamento deve impedir o presidiário de obter a progressão ao regime semiaberto. Algumas lideranças do CV podem obter a progressão até o final do ano, entre eles Marcinho VP.

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