Presos denunciam tortura no Presídio de Iaras, em São Paulo

SAP apura se preso algemado em cadeira de rodas foi marcado com faca e agulha quentes

Josmar Jozino, do Jornal da Tarde,

28 Novembro 2008 | 09h59

A Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) apura denúncias de tortura no Presídio de Iaras, no interior de São Paulo. O preso Alessandro da Luz Bernardo alega que foi algemado em uma cadeira de rodas e, feito gado, foi marcado com faca e agulha quentes na perna e sola do pé. O detento Giovanni dos Santos Caetano diz ter sido espancado e ferido com tiro no joelho esquerdo.   De acordo com os presidiários, as torturas e agressões aconteceram em setembro deste ano. Bernardo afirma que no dia 27 passou mal, sentiu fortes dores no estômago e vomitou sangue. Os colegas de xadrez pediram socorro. Segundo o detento, homens do Grupo de Intervenção Rápida (GIR), uma unidade de elite da SAP criada para conter motins e rebeliões, o retiraram da cela 29 do raio 2.   Bernardo alega que em vez de receber atendimento médico foi levado para uma cela queimada da Penitenciária de Iaras, totalmente destruída na rebelião de 3 de setembro. O preso afirma que no xadrez estava um diretor de disciplina. Diz ainda que por volta das 18h foi arrastado para uma galeria e algemado em uma cadeira de rodas.   Em seguida, passou a receber vários socos na cabeça e agulhadas pelo corpo. O preso denuncia que funcionários usaram faca quente para marcar na sua perna, como se faz em gado nas fazendas, a letra I, em em referência à Iaras. Depois, os torturadores utilizaram agulha para escrever em seu pé a letra U, segundo ele, numa referência à unidade.   O detento afirma que sofreu novas agressões com cassetetes e socos até desmaiar. Ficou três dias sem atendimento médico na cela queimada, onde funcionários atiravam bombas e efetuavam disparos. Bernardo diz que por causa das agressões teve paralisia no lado direito do corpo.   Já o preso Giovanni dos Santos Caetano afirma ter sido retirado da cela 201 do raio 2, às 13h de 9 de setembro. Caetano diz que pediu atendimento médico porque sentia dores nos rins. Segundo o detento, funcionários o conduziram à enfermaria. Como tinha dificuldade para andar, se escorou na parede. Por conta disso recebeu golpes de cassetete. O preso afirma que um diretor de disciplina sacou uma pistola automática, atirou em sua direção e atingiu seu joelho esquerdo.   Os dois presos foram transferidos para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, onde foram submetidos a exame de corpo de delito. O advogado dos detentos, Antonio Davi de Lara, protocolou ofício no 2º DP de Presidente Venceslau, pedindo abertura de inquérito para apurar as denúncias.   Um policial da delegacia disse ontem ao JT, que o exame de corpo de delito apontou lesões leves em Caetano e nenhuma lesão em Bernardo. O policial informou que o inquérito será conduzido pela Delegacia de Iaras, onde teriam ocorrido as agressões. Lara afirmou que protocolou ontem as denúncias na Corregedoria dos Presídios da capital.   A denúncia envolvendo o caso de Bernardo foi protocolada no Decrim-6 (Departamento de Execuções Criminais), às 11h40, sob número 012362-2/2. Em nota, a SAP informou ontem que vai apurar as denúncias dos presos.   Na rebelião de setembro, Iaras foi destruída. Um grupo de presos foi acusado de agredir três funcionários reféns. O quebra-quebra teria sido motivado por causa de espancamentos na Penitenciária 2 de Avaré, em meados de 2007. Fotos dos presos agredidos de Avaré foram enviadas para entidades de direitos humanos e autoridades prisionais. Os 1.400 rebelados de Iaras ficaram semanas ao relento. O presídio foi desativado para reforma.

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