Pressão e disputa na busca pelo bóson

Em meio à crise financeira, europeus e americanos lutam por supremacia científica

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h05

Numa madrugada da semana passada, o cientista brasileiro Denis Damazio recebeu em seu celular um alerta da sala de comando do acelerador de partículas (LHC) do Centro Europeu para a Pesquisa Nuclear (Cern). Era uma anomalia detectada em uma peça da máquina de 8 bilhões e responsável pelo maior experimento de Física da história.

Além dele, centenas de cientistas vivem de "plantão" por conta do LHC. Quando o Cern anunciou na quarta-feira que havia encontrado sinais de uma partícula que pode ser o bóson de Higgs, cientistas no auditório do laboratório em Genebra comemoraram de forma parecida à da sala de comando da Nasa quando o homem pisou na Lua. A partícula pode ser a peça final do modelo criado por Peter Higgs em 1964 (mais informações nesta pág.).

A busca pela partícula já gera descobertas importantes, mesmo antes da confirmação do bóson de Higgs. Algumas tecnologias usadas para ver a "partícula de Deus" poderão em pouco tempo estar em hospitais. Uma delas são os cristais usados nos detectores do acelerador, que estarão em materiais de diagnóstico médico de empresas francesas. Na Itália, serão adaptados para a terapia contra o câncer.

Farmacêuticas estão de olho na rede de computadores que processa os dados gerados pelo LHC, que, para chegar ao resultado da semana passada, acumulou 500 trilhões de choques de prótons. Uma empresa britânica transplanta o modelo para ajudar na pesquisa de remédios.

"Há um círculo virtuoso na ciência quando se faz pesquisa", explicou ao Estado o diretor do Cern, Rolf Heuer. "Estamos em busca da ciência pura, sem saber a que servirá. Mas temos certeza de que tudo o que desenvolvemos para lidar com problemas inéditos será útil para algum setor."

Para registrar a nova partícula, um acelerador de 27 quilômetros foi construído no subsolo de Genebra. Partículas são direcionadas por milhares de ímãs esfriados a -271°C e lançadas no acelerador, completando 11,2 mil voltas e 600 milhões de choques por segundo. Para medir esses choques, os detectores têm 12,5 mil toneladas. Soluções para os problemas dessas máquinas serão necessariamente inéditos.

O carioca Damazio viveu na pele essa situação. Responsável pela transferência dos dados dos detectores para computadores, o físico carioca teve de inventar um algoritmo para filtrar as informações úteis. Seu "descobrimento" permitiu que o Cern trabalhasse com 20 mil computadores em vez de 100 mil.

Damazio só está no Cern graças a um laboratório americano, ao qual é vinculado. Ele lamenta a ausência oficial do Brasil no Cern. "O orçamento que se dedica no Brasil ao experimento é muito abaixo do adequado." Ele não esconde a vontade de voltar ao País, mas sabe que isso pode significar o fim de seu envolvimento direto no experimento.

Dedicação. Longe da imagem de festa da semana passada, os bastidores do centro revelam um cotidiano de dedicação, mais erros que acertos e uma guerra política por recursos e prestígio. Mais de 10 mil cientistas trabalham no Cern, em um cenário parecido com o da Cidade Universitária de São Paulo, com prédios baixos, muito verde, avenidas grandes e arquitetura questionável. Entrar na lanchonete pode ser um anticlímax, com comida por quilo e jovens cientistas circulando de camisetas largas e alguns até de chinelos.

Mas as aparências enganam. Para que cientistas acelerassem suas descobertas em relação ao bóson de Higgs, a direção estipulou que dois detectores do LHC - Atlas e CMS - se lançassem na busca da partícula, sem compartilhar informações. "A cobrança é constante", disse um cientista, que não quis se identificar.

O Cern pagou caro por essa pressa. Em 2009 e 2010, o LHC sofreu uma pane. Motivo: a ordem era aumentar a energia que circularia no túnel, bater recordes e promover os choques dos prótons. A máquina não aguentou. Heuer diz que o Cern aprendeu a lição. Por isso vai suspender os choques no início de 2013 para que o LHC seja preparado para a nova fase, com energia recorde.

Mesmo que não se possa dizer com certeza se a partícula descoberta seja a de Higgs, ninguém esconde que há uma guerra pelo predomínio nas ciências. Físicos americanos insistem que a partícula poderia ter sido descoberta há anos nos EUA. Mas o Congresso, em 1993, enterrou o projeto de um acelerador de US$ 11 bilhões. "Essa descoberta poderia e deveria ter sido feita nos Estados Unidos", defendeu o físico Steven Weinberg, vencedor do Nobel de Física.

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