Preste Atenção!

Autor ainda não traduzido ao português, Jonathan Crary é o iconoclasta de plantão nas pesquisas e análises recentes sobre o "observador" (palavra que prefere a espectador). Em seu primeiro livro, Techniques of the Observer: On Vision and Modernity in the Nineteenth Century (MIT, 1990), Crary questiona pela raiz o modelo humano de visualização posto em vigor nos primórdios do século 19, que se apoiava na técnica da câmera obscura, difundida pela máquina fotográfica. Segundo Crary, o modelo falhava ao estabelecer diferença exemplar entre o sujeito e o objeto, dissociando-os pela instantaneidade, ao mesmo tempo em que empobrecia o observador por zerar a interação da imagem exterior com sua experiência.

Silviano Santiago,

23 de junho de 2012 | 04h46

O modelo humano de percepção fundado pela câmera obscura é, pois, metafórico. Visa a explicar a percepção humana por uma câmera vedada à luz, a não ser por orifício munido de lente que serve para focar uma imagem instantânea do mundo exterior, com a finalidade de transportá-la para o interior da mente. Crary substitui o modelo espacial posto em vigor pela metáfora, por outro, fisiológico – o de um olho humano sensível à luz e sujeito tanto às pulsações mutáveis do exterior quanto aos estímulos interiores da retina. Crary troca o espaço estável do dualismo sujeito/objeto pelo desenrolar duma cena temporal instável em que observador e objeto observado entram em constante interação física e psicológica.

Leitores de Freud detectam que o novo modelo se alimenta da noção de "atenção flutuante", configurada pelo mestre em 1912. A noção visa a questionar as motivações que, na escuta da fala do analisando, "dirigem a atenção" do analista. Graças a ela, o analista (o observador) passa a conservar na memória uma multidão de elementos aparentemente insignificantes cujas correlações semânticas são ressaltadas a posteriori. Graças ainda a ela, a atitude objetiva do sujeito (do observador) se adequa a objeto mutável, essencialmente deformado. A atenção flutuante permite a conversa entre inconscientes.

Em seu livro posterior, Suspensions of Perception: Attention, Spectacle and Modern Culture (MIT, 2001), Crary retorna à metáfora oitocentista da câmera obscura a fim de datar o momento em que ela se responsabilizou por nossa postura de "prestar atenção" (to pay attention). A atenção passava, então, a dirigir o nosso modo cognitivo. Ao olhar o quadro-negro, dirigir um carro, consultar a tela do computador, o indivíduo "presta atenção", e se desengaja de amplo campo de atração, tanto visual quanto auditivo. Ele foca (para usar o verbo da moda) um número reduzidíssimo de estímulos. A experiência moderna do observador requer, pois, que ele exclua da consciência muito do ambiente circundante. A vida se compõe à semelhança da colcha de retalhos. Nos últimos 150 anos, a fragmentação do sujeito não é uma condição "natural"; é antes o denso e poderoso refazer da subjetividade humana pelo prestar atenção.

A "atenção dirigida" ganha tal poder nos séculos 19 e 20 que, às vésperas do novo milênio, psicólogos alertam para o seu avesso – a síndrome do déficit de atenção (TDAH). A atividade motora excessiva é resultado do alcance limitado da atenção e da mudança contínua de objetivos a que a criança é submetida. O "transtorno psiquiátrico" (apud OMS) a desqualifica na escola, no playground e em casa.

Em termos do observador em arte, Walter Benjamin foi o primeiro a compreender "a recepção em estado de distração", opondo esta ao – em termos dele – "recolhimento". São as pulsações mutáveis de um novo objeto – no caso o filme cinematográfico – que levam Benjamin a propor a "distração" como modo de percepção do observador. Segundo ele, "a câmera cinematográfica nos abre a experiência do inconsciente ótico, do mesmo modo que a psicanálise nos abre a experiência do inconsciente pulsional". Benjamin privilegia a estética dadaísta porque suas obras produzem, "através da pintura (ou da literatura), os efeitos que o público procura hoje no cinema". E continua: "As manifestações dadaístas asseguravam uma distração intensa, transformando a obra de arte no centro de um escândalo" (v. "Dadaísmo", em A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica).

Crary não abandona a atenção para encontrar abrigo teórico na distração benjaminiana. Também não insufla – ao contrário de Benjamin – uma crítica normativa à pintura (a que convida o espectador ao recolhimento) pela oposição ao cinema (onde o espectador se abandona às associações). Crary opta por opor a atenção dirigida à atenção flutuante e por dissertar a favor de "uma intersecção paradoxal" entre as duas, cuja rentabilidade teórica e analítica passa a examinar a partir da leitura de quadros de Manet (Dans la Serre), Seurat (La Parade du Cirque) e Cézanne (Pins et Rochers).

Para entrar na "dialética da atenção e da distração", Crary vale-se da ambiguidade da prática da hipnose, dispositivo a que recorreram Charcot, Freud e William James. A hipnose abre um lugar entre, já que é fenômeno que envolve e implica dois estados mentais. Leva o hipnotizado a oscilar entre a intensa concentração focal e a relativa suspensão do conhecimento periférico. Representada pelas telas mencionadas, a arte impressionista se dá a ler na oscilação entre dois estados mentais adversos. Inaugura a possibilidade de se opor a uma poderosa atenção focada e normativa a distração que a desfoca de forma irresistível. O observador está diante de exemplos de "irredutíveis modalidades mistas de percepção".

O olhar do observador flutua entre "uma tela métrica e homogênea, sinônimo aparente do espaço clássico, e um regime perceptivo descentrado e desestabilizado"; mantém-se "entre uma operação funcional da visão e as ondulações atemporais do devaneio".

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