Primeira impessão

A tinta é um dos suportes mais antigos conhecidos pelo homem, mas está acompanhando as mudanças da modernidade. Faz tempo que ela é usada nas canetas, é claro, e mais recentemente nos cartuchos das impressoras, mas agora ela tem sido usada também como parte da mistura usada em circuitos leves, sensores e interruptores.

O Estado de S.Paulo

23 Julho 2012 | 03h07

Circuitos feitos com tintas condutivas capazes de suportar a forte intensidade da pressão, do calor e da umidade estão substituindo a fiação de cobre e as conexões mais volumosas em muitos novos produtos. Os circuitos de tinta, tipicamente feitos com um conjunto de materiais condutivos, são impressos em superfícies como o plástico, o tecido e até o papel.

A empresa T-Ink desenvolveu tintas tão robustas que os circuitos, sensores e interruptores podem ser impressos numa superfície plástica lisa e então moldados sobre componentes tridimensionais que controlam os faróis superiores e o teto solar de carros. A superfície do painel de controle é sensível ao toque, de modo que basta um dedo para acender as luzes. E o processo tem um custo potencialmente inferior ao dos métodos atuais.

"Este é um uso extremamente criativo da eletrônica impressa", disse Harry Igbenehi, analista de tecnologia que acompanha o setor da eletrônica impressa para a consultoria IDTechEx, de Cambridge, Grã-Bretanha.

Peças feitas com esta tecnologia podem substituir montagens de maior espessura, disse ele, reduzindo o peso e as dimensões dos componentes eletrônicos.

O uso da eletrônica impressa nos carros não é novidade - faz tempo que a técnica é empregada no sistema que impede os vidros de embaçar. "Mas a tecnologia tem se tornado cada vez mais sofisticada", disse Igbenehi. "Estamos assistindo a uma revolução silenciosa."

A fiação, os interruptores e os sensores impressos da T-Ink para painéis automotivos exigem características incomuns para a tinta, disse John Gentile, fundador e codiretor de criação da empresa, com sede em Manhattan.

O circuito de tinta deve ser delicado o bastante para se estender durante a formação e rígido o suficiente para suportar a intensidade da pressão e do calor durante o processo de moldagem.

"A tinta precisa estar muito dura quando injetamos em torno dela plástico aquecido a 260 °C para criar uma peça sólida", disse Gentile. "Ela não pode descascar quando for colocada no plástico derretido."

O primeiro dos painéis moldados para carro feitos pela empresa será lançado em setembro, disse, prevendo que o modelo seja usado em 1,2 milhão de carros no ano que vem.

Tecido. A T-Ink também fabrica circuitos extensíveis e laváveis impressos em tecido e capazes de medir a frequência cardíaca e respiratória, além de outras informações biométricas, em roupas esportivas, e também há outras aplicações médicas, como uma veste para fazer um eletrocardiograma.

No ano que vem, segundo Gentile, sacos de dormir feitos com a tecnologia da empresa terão circuitos impressos na parte inferior. Eles vão servir para aquecer os dedos do pé e evitam que se use as rígidas cordas aplicadas nos cobertores elétricos nem as costuras volumosas dos tecidos condutores.

Para os usos têxteis, os circuitos de tinta podem ser impressos diretamente no tecido. Podem também ser impressos numa folha de papel com cola num dos lados e transferidos para o tecido numa prensa térmica. "Conte até dez, remova o papel com cuidado, e o material escolhido terá os circuitos, sensores, botões e interruptores", disse Gentile.

A T-Ink - abreviação de "thinking ink" ("tinta inteligente") - foi criada em 2001.

Inicialmente a empresa produzia itens promocionais como brinquedos, tapetes interativos e camisetas. (As camisetas poderiam reproduzir sons diferentes quando tocadas em pontos diferentes.) Segundo Andrew Ferber, copresidente da T-Ink, a empresa mantém a fabricação de muito de seus produtos originais enquanto avança para novas áreas com seu processo de moldagem para painéis de controle. Os circuitos da T-Ink podem ser impressos usando as técnicas tradicionais de impressão. Com frequência, os circuitos são feitos de muitas camadas de tintas condutivas e isolantes, segundo Peter Harrop, presidente da IDTechEx. Quando os funcionários da T-Ink criam estes eletrônicos que têm diversas camadas, disse Harrop, "eles aplicam a tinta de camada em camada - chamo este processo de compensado eletrônico".

A Novalia, pequena empresa de Cambridge, na Grã-Bretanha, projeta produtos interativos impressos com tinta condutiva, concentrando-se na ideia de fazer a estampa interagir com o toque, segundo a fundadora e diretora da empresa, Kate Stone. As tintas são impressas por meio de métodos convencionais como o offset.

A empresa demonstrou cartazes interativos e falantes feitos de papel que podiam ser tocados pelas pessoas de maneira semelhante à tela de um iPhone ou iPad.

Um protótipo desses cartazes pergunta às pessoas qual são suas preferências para um bolo perfeito. Depois que os usuários escolhem a cobertura e outros detalhes, tocando no cartaz para fazer cada seleção, eles são levados a uma página da Novalia no Facebook que mostra descrições e imagens dos bolos recomendados. No futuro, outras empresas podem associar seus sites a cartazes deste tipo.

Outro protótipo de cartaz consegue estabelecer uma conexão sem fio com qualquer iPad num raio de aproximadamente cinco metros. Ao tocar no cartaz para escolher diferentes clipes de músicas, a canção pode ser ouvida no iPad. Kate diz que o papel tem um futuro eletrônico, assim como a tinta. "O papel pode ser muito mais interativo", disse ela. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Anne Eisenberg

The New York Times

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