Procedimento reduz risco de perda de tecidos implantados

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) fez pela primeira vez cirurgia de reconstrução facial com ajuda de equipamento que diminuiu os riscos de perda dos tecidos implantados (pele, gordura e músculo). O fluxo sanguíneo da veia reconectada foi monitorado por um aparelho de doppler durante a operação e nos sete dias seguintes.

CLARISSA THOMÉ, Estadão Conteúdo

07 Novembro 2014 | 19h41

Se tivesse ocorrido obstrução - o que leva à necrose dos tecidos -, o equipamento teria dado o alerta. Foi a primeira vez que o aparelho foi usado em um hospital brasileiro.

Josué Peixoto Teles da Costa, de 20 anos, foi o primeiro paciente monitorado, em cirurgia ocorrida em 28 de agosto. Ele tinha um osteossarcoma de maxilar, que fez com que perdesse metade do rosto e parte do couro cabeludo. A saída foi transplantar pele, gordura e músculo da barriga para a face do rapaz. Artéria e veia do pescoço foram preparadas para reconectar os tecidos transplantados ao rosto.

"Antigamente, não tínhamos como monitorar esse tecido. Se a artéria ou a veia obstruíssem, nós só percebíamos dias depois, quando a pele começava a mudar de cor. E aí se perdia o tecido transplantado, que necrosava. Em grandes intervenções na face, é preciso fechar não por questões estéticas, mas porque as lesões são incompatíveis com a vida. Não se pode correr o risco de perder esse tecido transplantado", afirmou o cirurgião plástico Marcelo Moreira Cardoso, coordenador da microcirurgia do Inca.

Em 5% dos casos de revascularização ocorre uma reação inflamatória na veia ou artéria religada e o fluxo do sangue é interrompido. Se durante o período de monitoramento o doppler passar mais de dois minutos abaixo de quatro (numa escala de fluxo sanguíneo que vai até 10), é porque houve a obstrução e o paciente precisa ser operado para desentupir a veia ou a artéria - um procedimento simples, se descoberto a tempo.

"Pesquisas internacionais mostram que esse monitoramento reduz em 70% a necessidade de novos transplantes", explica Cardoso.

Como no caso de Josué a revascularização foi completa, a equipe médica o liberou para fazer quimioterapia. Mais tarde, passará por outras cirurgias plásticas. Outra paciente, uma mulher de cerca de 40 anos, com câncer nas glândulas salivares, também foi operada com o monitoramento pelo doppler no Inca. Nesse caso, foi preciso retirar a mandíbula e ela recebeu enxerto ósseo vascularizado (com artéria e veia), retirado da fíbula (osso da perna).

Além das cirurgias de cabeça e pescoço, o aparelho pode ser usado em transplantes de fígado e rim e no reimplante de membros (mão, braço, dedos). "O equipamento torna mais simples o pós-operatório. São cirurgias complexas, caras, em que nada pode dar errado. Imagina o quão grave é perder um reimplante de uma mão ou voltar para a fila do transplante de fígado ou rim", afirma o médico.

Cada aparelho doppler custa cerca de R$ 45 mil e está em processo da aquisição pelo Inca. "O Inca é um formulador de políticas públicas. Depois de testado pelo instituto, o equipamento pode ser adotado pelo SUS", diz Cardoso.

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