Processo de votação dificulta escolha do 'papa perfeito'

Cenário: José Eduardo Barella

É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2013 | 02h03

A complexidade que envolve a escolha do papa que vai suceder Bento XVI, a partir do conclave de hoje, pode ser resumida na seguinte constatação: parte dos cardeais italianos, justamente aqueles que simbolizam o poder da Cúria, faz campanha aberta pela indicação de um cardeal latino-americano, d. Odilo Scherer. E boa parte dos cardeais de fora da Europa, ávidos por mudanças na administração da Santa Sé, aposta suas fichas num cardeal italiano, d. Angelo Scola.

Por trás dessa estranha articulação que marcou as reuniões pré-conclave está uma Igreja com poucas divergências teológicas internas, mas dividida como há muito não se via. Parte dessa divisão é resultado de uma série de denúncias que abalaram a Santa Sé nos últimos dois anos, do vazamento de documentos do quarto do papa Bento XVI - o chamado VatiLeaks - à crise gerada pelos supostos crimes financeiros detectados no Banco do Vaticano e casos suspeitos de corrupção na administração de Cúria.

A renúncia surpreendente de Bento XVI acabou colocando, no olho do furacão, os 115 cardeais convocados para o conclave. Embora o quadro geral indique uma opção entre d. Odilo e d. Scola, o sistema de votação se encarrega de embaralhar tudo. Só será eleito papa o nome que tiver dois terços dos votos, equivalente ao apoio de 77 cardeais. E nenhum dos lados tem assegurado esse apoio. A ala da Cúria conta com os votos de alguns latino-americanos, de parte da dividida bancada italiana e, talvez, da maioria dos 33 cardeais que ocupam cargos estratégicos na Santa Sé e temem cair no ostracismo caso o outro lado vença. Os articuladores da candidatura de Scola estão angariando votos entre cardeais do Terceiro Mundo, dos EUA e europeus insatisfeitos com a Cúria.

Para complicar, os cardeais não guiarão seu voto apenas tendo em vista a crise administrativa na Cúria. Eles terão de escolher um papa que, além de ser um bom gestor, tem de ter carisma e uma mensagem religiosa de impacto para lidar com outros desafios ainda mais complexos, entre eles a fuga de fiéis e a distância que hoje separa a mensagem do papa de seu rebanho num mundo cada vez mais secular e individualista.

Quem, entre os cardeais, tem esse perfil? A eleição de Bento XVI foi um conclave de transição - o cardeal Joseph Ratzinger era o braço-direito de João Paulo II e sua escolha foi rápida e natural. Agora a situação é diferente, principalmente pelo fato de Ratzinger/Bento XVI ter ajudado a nomear ou nomeado todos os cardeais que agora vão escolher seu sucessor.

Mais que encontrar um cardeal mágico, com todas as qualidades de um papa, os 115 eleitores - com mais semelhanças do que diferenças entre si- correm o risco de serem engolidos pelas articulações e acabar escolhendo apenas o papa possível.

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