Procura-se diretor

Europa exige que um europeu substitua Dominique Strauss-Kahn no FMI. Falta combinar com o resto do mundo

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h29

Do interior de sua prisão nova-iorquina, Dominique Strauss-Kahn pediu demissão do seu cargo de diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ele hesitava em fazê-lo. Tal decisão não seria interpretada como confissão de culpa, o reconhecimento de que de fato tentou estuprar uma camareira em sua suíte no hotel Sofitel? Ele deu duas razões para a saída: de um lado, evitar que o FMI seja prejudicado pela tempestade; de outro, poder empregar todas as forças para provar sua inocência no suposto estupro.

De qualquer maneira, mesmo antes da carta grandes manobras já tinham se iniciado em torno do FMI. Não seria esta uma boa ocasião para começar tudo do zero, ou seja, mudar a tradição que, desde Bretton Woods, em 1944, reserva a direção do Banco Mundial para os Estados Unidos e a do FMI para a Europa? Nestes 67 anos, a configuração econômica do planeta mudou. Não vivemos mais na época em que toda a riqueza do mundo estava nas mãos dos Estados Unido e da Europa. Colossos nasceram: China, Índia, Brasil, África do Sul.

Essa análise parece ainda mais correta já que o próprio DSK, que foi um grande dirigente do FMI, ressuscitando essa organização inerme, trabalhou para dar aos países emergentes o papel de decisão que eles merecem. E convenceu os europeus a cederem parte do seu peso em termos de votos e cadeiras dentro da instituição. Assim, substituir Dominique Strauss-Kahn por um não europeu seria uma maneira de ser fiel ao ex-diretor e persistir nesse terreno fértil que ele começou a lavrar.

Muito bem. Mas tal perspectiva assusta a Europa. O contra-ataque foi fulminante. A chanceler alemã manifestou-se a respeito em alto e bom som e foi imediatamente acompanhada pela maioria dos europeus. Todo esse pequeno mundo se pôs de acordo: o próximo diretor do FMI deve ser um europeu, como sempre foi desde o nascimento da instituição.

Por que um europeu? Primeiro, porque os europeus são muito inteligentes. Depois, porque a Europa e suas duas instituições (a União Europeia e o euro) estão em plena tempestade. É uma quebradeira por toda a parte. A Grécia perde o folego, não consegue mais tomar emprestado. Portugal está asfixiado. A Irlanda está esgotada. A Espanha se revolta contra o rigor do premiê Zapatero. A Itália perde força e a França não sabe se saiu da crise ou não.

Será, portanto, saudável que a direção do FMI permaneça nas mãos de um europeu. É um europeu, Dominique Strauss-Kahn, que há dois anos mantém a cabeça da Europa fora d"água, com artimanhas engenhosas, conseguindo que a rica Alemanha salve os maus alunos, os néscios da Europa - Grécia, Portugal, Espanha, etc.

A barreira erigida por Angela Merkel contra uma candidatura não europeia reverteu a tendência, mesmo com alguns países emergentes invocando os méritos de seus candidatos: o turco Kemal Dervis, ex-ministro das Finanças, muito estimado e próximo dos europeus; o cingapuriano Tharman Shanmugaratnam, um economista jovem, que não provocaria tanto medo quanto um chinês, pelo pequeno porte de Cingapura; E ainda o sul-africano Trevor Manuel, cuja nomeação poderia se constituir num símbolo bastante forte para toda a África; e, por fim, o israelense Stanley Fischer, que foi o número 2 do FMI durante sete anos, um técnico bastante respeitado. Ele é israelense, mas tem também nacionalidade americana, o que pode ser um trunfo ou, pelo contrário, uma desvantagem.

O Brasil, por meio do seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, insiste numa mudança: "Se o FMI pretende ter legitimidade, seu diretor-geral só deve ser escolhido após uma ampla consulta junto aos países membros, pois a escolha deve ser baseada no mérito e não na nacionalidade". Os meios europeus observam, no entanto, que Mantega presta uma bela homenagem à obra de DSK e, conhecido por sua eloquência áspera, julga "compreensível" a posição europeia, mas pede apenas que não haja precipitação.

Mas está havendo exatamente uma precipitação, pelo menos dos candidatos europeus. Eles já são uma dezena na linha de partida, fazendo exercícios de respiração e aquecendo os músculos, à espera apenas do tiro de largada. Quem são? Claro que aí estão os alemães, uma garantia de competência, de rigor: Peer Steinbrück, ex-ministro das Finanças social-democrata, e Axel Weber, que foi presidente do Bundesbank, banco central alemão.

Entre os ingleses o favorito é o ex-premiê trabalhista Gordon Brown, que sonha com o FMI desde que nasceu e sempre se destaca nas reuniões financeiras. Mas ele sofre de algumas deficiências. Esse filho de pastor escocês não tem jogo de cintura. Seus acessos de cólera são terríveis. Pior ainda: o atual premiê britânico, o conservador David Cameron, não concorda com sua indicação. Brown, no entanto, ainda tem chances, pois a candidatura ao posto no FMI poderá ser proposta por outro país que não o seu.

E há também a atual ministra das Finanças da França, Christine Lagarde, dotada de um perfil internacional porque já foi, nos Estados Unidos, chefe de um grande escritório de advocacia, Baker & Mackenzie, com 3 mil advogados. No governo francês, Christine tem mostrado talento. Mas tem duas desvantagens. Uma, é que o último diretor do FMI, DSK, é francês; outra, corre o risco de ser incomodada por uma acusação de "conivência" com um empresário pouco recomendável, Bernard Tapie. Apesar de tudo, é um dos candidatos favoritos.

Dá para ver que o quadro não é simples. Nos meios europeus, o sentimento é de haver chance de que o próximo diretor do FMI seja um europeu. Mas por outro lado todos reconhecem que está na hora de mudar essa regra "tácita" segundo a qual o FMI deve ficar sempre com a Europa. Em todo caso, é assim que se quer interpretar as advertências do ministro Guido Mantega. Trata-se de pôr um fim a esse processo automático de nomeação de um europeu para o cargo, substituindo-o por uma verdadeira campanha eleitoral na forma devida, mesmo que seja preciso dar um pouco de tempo ao tempo.

E um outro elemento será levado em consideração logo mais: a opinião dos EUA, Canadá e Japão. Esses três países estarão dispostos a aceitar que o FMI permaneça, ainda desta vez, um apanágio europeu? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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