Procuramos ambientes habitáveis

Análise: John Grotzinger

CIENTISTA-CHEFE DA MISSÃO. , O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2012 | 03h04

O pouso do Curiosity abre uma nova janela de exploração remota do planeta vermelho. Explorações anteriores à nossa foram "aonde nenhum veículo explorador havia chegado".

Mas nunca havíamos chegado a Marte com um objetivo tão desafiador: avaliar as perspectivas de missões futuras destinadas a buscar sinais de vida. Nossa missão se baseia na suposição de que Marte foi habitável. Mas não estamos procurando vida em si; procuramos ambientes habitáveis.

Como cientista-chefe da missão, estou tão enfronhado no planejamento que tendo a ficar imerso em todos os detalhes. Imaginem comprar um carro de US$ 2,5 bilhões com um manual do proprietário de 10 mil páginas; um manual que você não tem somente de ler, mas tem de escrever também, porque é o primeiro e único a ser escrito.

O passo que estamos prestes a dar é formidável. Vamos viajar numa espécie de máquina do tempo criada especificamente para reconstruir como era a superfície de Marte há bilhões de anos. A história primitiva de Marte está mais bem preservada que a da Terra, por isso teremos a chance de rever o desenvolvimento de nosso planeta com o estudo de Marte.

Os ingredientes fundamentais de um ambiente habitável são água, energia e carbono. Missões passadas determinaram que Marte teve água líquida no passado - e tem, ocasionalmente, em seu presente. Também sugeriram locais onde processos químicos naturais poderiam ter gerado energia para o metabolismo. Mas onde está o carbono orgânico que torna possível o metabolismo de todas as criaturas vivas?

É aí que nos encaixamos. Recuar bilhões de anos no tempo geológico é difícil. Mas o Curiosity está bem equipado: é um laboratório com funis, tubos de ensaio, lentes de aumento, espectrômetros de massa, analisadores de gás, fornos e um sistema de amostragem com uma broca forte o bastante para perfurar concreto.

Além disso, ele tem 17 câmeras, várias com captura de vídeo colorido em alta definição. E é movido a plutônio, o que lhe permitirá viajar por anos. Isso é importante, porque a busca de carbono orgânico pode ser elusiva. O Curiosity pode escanear o terreno à procura do ambiente mais promissor e depois seguir até lá para testes.

A Cratera Gale foi escolhida após um estudo de cinco anos. Nela há um leito de rio com registros de fluxo de água e terrenos ricos em minerais. No meio dessa cratera de 150 quilômetros de diâmetro há uma montanha onde o Curiosity passará a maior parte de sua vida útil. São as camadas sedimentares dessa montanha, que representam centenas de milhões de anos da história ambiental primitiva de Marte, que pretendemos estudar.

Imagens. Além da ciência, não consigo pensar em um local mais majestoso para se explorar que a Cratera Gale e o Aeolis Mons. Embora as primeiras imagens capturadas pelo veículo explorador sejam de baixa resolução e em preto e branco, logo poderemos ser transportados à superfície de Marte pelas fotos mais detalhadas e com as resoluções mais altas já tiradas da superfície de outro planeta.

Se formos bem-sucedidos, teremos criado um patrimônio nacional de valor incalculável. Os dias, semanas e meses após o pouso verão nossos cientistas e engenheiros trabalhando juntos para extrair o melhor desempenho do Curiosity e o máximo de informações científicas de nosso local de pouso. Todos os que trabalham na missão estão prontos para fazer essa viagem de retorno no tempo geológico para tentar compreender quais segredos estão preservados no Aeolis Mons, que vistas poderemos reconstruir dos tempos em que Marte era muito diferente de hoje e se algum dia houve ambientes onde microrganismos poderiam ter se desenvolvido.

Proust nos lembra de que a verdadeira viagem de descoberta consiste não somente de ver novas paisagens, mas de ter novos olhos. A perspectiva extraordinária que o Curiosity propiciará poderá algum dia nos permitir compreender por que um planeta que inicialmente pode não ter sido muito diferente do nosso começou seu declínio inexorável, enquanto o nosso prosperava e florescia. E com isso ele nos diria algo sobre nós mesmos e sobre onde estão nossas raízes mais profundas. / NYT. TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK.

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