Produção de gasolina cai 3% no ano

Retração foi registrada nas refinarias da Petrobrás até outubro e reflete a mudança do perfil do mercado

Nicola Pamplona, RIO, O Estadao de S.Paulo

14 Dezembro 2009 | 00h00

A queda nas vendas de gasolina levou a Petrobrás a adotar mudanças na gestão de suas refinarias. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), a produção de gasolina no País teve redução de 3% até outubro, para 16,4 bilhões de litros. O Brasil é exportador do combustível, mas os mercados americano e europeu também vêm enfrentando retração. Além disso, a estatal não consegue a mesma rentabilidade em suas vendas externas porque a gasolina brasileira não atende padrões de qualidade dos principais consumidores.

"A Petrobrás dispõe de certa flexibilidade para adequar seu perfil de produção ao perfil de demanda, tanto interna como externa", comenta a empresa, em nota enviada ao Estado, na qual confirma a estratégia de reduzir a produção. "O principal motivo para essa adequação na produção foi a redução do mercado para esse derivado, para a qual contribuiu efetivamente o expressivo avanço no consumo de álcool hidratado."

Segundo especialistas, a manutenção da tendência de crescimento do consumo de etanol depende da política de preços da Petrobrás para a gasolina. O preço do combustível está praticamente estável para o consumidor final desde 2005 - houve dois reajustes no período, mas que não chegaram às bombas por conta de alterações na carga tributária.

Desde outubro, a gasolina e o diesel estão acima dos patamares praticados no exterior, estratégia que garantiu à área de refino da Petrobrás um lucro de R$ 5,6 bilhões nos nove meses de 2009, reduzindo o impacto da crise sobre a saúde financeira da companhia. Ao mesmo tempo em que garantiria um avanço sobre o mercado de combustíveis automotivos, portanto, a redução de preços representaria redução nas margens de lucro da estatal.

"O preço da gasolina é quase um preço controlado, enquanto o do etanol é livre e segue as variações do mercado", comenta o consultor Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Uma possível redução é vista com maus olhos pela indústria canavieira, que espera recuperar margens de lucro em 2010. "Lutamos por clareza nas regras. É difícil conviver com um concorrente que não acompanha regras de mercado", diz o diretor técnico da União da Indústria de Cana de Açúcar, Antônio Pádua.

"Esperamos em 2010 um mercado mais equilibrado, com preços que remunerem o investimento e com consumo não tão espalhado pelo País", continua Pádua. Ele defende que preços em níveis um pouco mais altos do que os dos últimos anos mantém a competitividade nos mercados mais próximos à produção ao mesmo tempo em que justificam investimentos em novas usinas.

Este ano, o preço do etanol só não esteve competitivo com relação à gasolina no Acre, Pará, Amapá e Roraima, onde não há produção e os custos do transporte são altos. Em todos os outros Estados, o etanol bateu o derivado do petróleo em pelo menos um mês durante o ano (a conta considera que o primeiro deve custar até 70% do preço do segundo). Em 10 Estados, incluindo São Paulo, o etanol ficou mais em conta em todos os meses até novembro.

Por causa dos baixos preços nos últimos anos, diversos projetos de expansão foram suspensos e acelerou-se o movimento de compra de empresas em dificuldades por grupos maiores. Pádua calcula que, dos 23 projetos novos previstos para 2009, 19 entrem em operação até o final do ano. O porcentual de projetos suspensos deve ampliar nos próximos dois anos. "Só estão entrando aqueles iniciados em 2006 e 2007."

"Há muita pressão política nessa questão do etanol", aponta Pires. "Para a Petrobrás, a solução é produzir menos gasolina", completa. A estatal sabe disso e já reduziu o volume do combustível em seus novos projetos de refino. A refinaria de Pernambuco e o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, por exemplo, não produzirão gasolina. O parque atual de refino também está sendo preparado para produzir mais óleo diesel. Entre janeiro e novembro, diz a ANP, a produção do combustível foi 3,8% maior do que no mesmo período do ano anterior. O Brasil é importador de diesel.

A Petrobrás estima que a gasolina representará só 17% do consumo de combustíveis no País em 2020. O etanol hidratado chegará a uma participação de 75%. No novo planejamento estratégico, a companhia decidiu ampliar a atuação no mercado de etanol, abrindo inclusive a possibilidade de comprar usinas existentes.

NÚMEROS

16,4 bilhões

foi a produção de gasolina até

outubro deste ano

R$ 5,6 bilhões

foi o lucro acumulado pela área de refino da Petrobrás até outubro

17% é o quanto

representará a gasolina do

consumo total de combustíveis em 2020

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.