Produtor adia reforma de canaviais

Conforme previsão de analistas, este ano haverá muitas lavouras de 7 e 8 anos em todo o Estado de São Paulo

Moacyr Castro, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2009 | 02h33

Com a tonelada da cana-de-açúcar vendida por R$ 37, mas com custo de produção a R$ 52, a próxima safra terá forte presença de canaviais envelhecidos por falta de recursos suficientes para a renovação. Normalmente, a lavoura é erradicada após cinco cortes, mas o período 2009/2010 terá muito canavial de 7 e 8 anos, que não tem condições de atingir a produtividade média de até 90 toneladas/hectare, registrada na região de Ribeirão Preto, a maior produtora do País.A cana de 7 e 8 anos renderá 4 toneladas a menos por hectare e a falta de dinheiro para adubar e aplicar defensivos resultará na perda de mais 2 toneladas. As previsões são do cientista Marcos Landell, diretor do Centro de Pesquisas de Cana da Secretaria da Agricultura de São Paulo, confirmadas por Kleber José de Moraes, consultor da Associação dos Fornecedores de Cana da Região Oeste Paulista (AFCOP), que reúne cerca de 3.500 produtores.Para o usineiro Maurílio Biagi Filho, conselheiro da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), a recuperação de preços já começou. "A retomada é sempre do produto final para a matéria-prima. Nos últimos dez dias, o litro de álcool anidro (aditivo) subiu de R$ 0,87 para R$ 0,91 e o hidratado (combustível direto dos carros flex e a álcool), de R$ 0,68 para R$ 0,76, nas usinas. A cana iniciou esta safra a R$ 30 e deverá terminar a R$ 37", compara.Marcos Landell recomenda aos produtores e usineiros não levar a safra janeiro adentro, porque é contraproducente contrariar a natureza e apostar no improvável rendimento industrial. "Máquinas e caminhões atolam, o risco de prejuízo é grande. Só se cogitaria essa prática se pudesse colher cana de avião. É preferível deixar a cana em pé para o próximo ano (bisar)", alerta.Pelos cálculos de Osvaldo Alonso, consultor agronômico da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Oeste Paulista (Canoeste), que tem cerca de 5 mil cooperados, entre 6% e 7% da safra paulista, aproximadamente 30 milhões de toneladas, ficarão para a colheita 2009/2010.Para Landell, 2009 será um ano de baixo plantio, embora a base da renovação esteja pronta. E é ampla, com 35 novas variedades que, em função dessas dificuldades, não serão multiplicadas adequadamente. O cientista calcula que plantar um hectare de cana custe em torno de R$ 4 mil. Em valores de hoje, seria investir R$ 4 mil para receber R$ 3.300 depois de ano e meio.INADIMPLÊNCIAA inadimplência de algumas usinas no pagamento dos fornecedores de cana não preocupa tanto o consultor Kleber José de Moraes. "É curioso, estamos vivendo o recomeço de um ciclo histórico que sempre dura oito anos; o último período crítico foi de 1998 para 1999", recorda. Este ano, diz Moraes, o agravante é que boa parte das indústrias investiu na fábrica para atender à demanda crescente de açúcar e álcool, em detrimento da lavoura. É claro que a primeira opção é pagar os trabalhadores, depois, os fornecedores - muitos receberão parceladamente.Para Biagi Filho, só com a redução do número de usineiros será possível um controle de produção como fazem os petroleiros. "Nosso problema não é fazer muito álcool, mas fazer mais do que o que cabe no mercado. E pagamos por isso." O produtor lembra que os preços da cana estão atrelados aos do álcool e do açúcar, no mercado interno e externo e que só agora ensaiam a alta. Ele observa que os balanços das usinas mostram que custa mais produzir do que se arrecada com a venda. "O consumo dos nossos produtos é garantido, mas precisamos saber administrar melhor a atividade", reconhece.Mesmo que a crise internacional faça um corte abrupto no sistema, Biagi Filho garante que o preço do petróleo pode cair, "mas o álcool será o aditivo do mundo e o combustível do Brasil". INFORMAÇÕES:Unica, tel. (0--11) 3093- 4949; AFCOP, tel. (0--18) 3401-1699

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