Produtores rurais argentinos anunciam suspensão de protestos

Mobilização será interrompida na quarta-feira, quando governo e ruralistas terão encontro

BBC

20 de maio de 2008 | 03h05

As principais associações de produtores rurais da Argentina decidiram na segunda-feira, 19, suspender mais uma vez os protestos que realizam em todo o país e retomar as negociações com o governo. Segundo os produtores, os protestos serão suspensos a partir de quarta-feira, quando o governo vai receber líderes rurais para discutir possíveis mudanças nos impostos que provocaram as manifestações. A suspensão da paralisação era uma das condições que a presidente havia colocado para retomar o diálogo com os ruralistas. Os protestos do setor rural argentino foram iniciados em março, motivados pelo aumento de impostos sobre as exportações agropecuárias, principalmente de soja. Os agricultores, no entanto, mantêm em pé a realização de uma mega-marcha de protesto marcada para o dia 25 de maio. A marcha será realizada até a cidade de Rosario, principal porto de escoamento da produção agrícola argentina.As manifestações envolveram o bloqueio de estradas e panelaços nas principais cidades argentinas, provocaram desabastecimento no país e se transformaram na maior crise enfrentada pela presidente Cristina Kirchner desde que assumiu o poder, em dezembro passado.  A cúpula da Igreja Católica argentina ofereceu-se nesta segunda-feira de manhã a servir como intermediadora no grave conflito entre ruralistas e o governo. Após dois meses de neutralidade neste conflito a Comissão Executiva do Episcopado, liderada pelo cardeal Jorge Bergoglio, primaz da Argentina, emitiu um comunicado no qual pediu um "acordo urgente" entre os ruralistas e o governo Cristina.  Segundo a Comissão, o acordo é necessário para "todos os argentinos, especialmente os pobres, que são os que mais sofrem as conseqüências desta situação". Os produtores chegaram a manter uma trégua de um mês, mas retomaram os protestos no início de maio, após o fracasso das negociações com o governo. Avanços Segundo o correspondente da BBC em Buenos Aires Max Seitz, apesar dos fracassos anteriores, analistas acreditam que desta vez há a possibilidade real de avanços no diálogo entre produtores e governo. Analistas afirmam que as posições parecem ter se "suavizado" e a população argentina demonstra estar cansada do conflito, diz Seitz. Na semana passada, Cristina Kirchner já havia transmitido uma mensagem em tom conciliador, apesar de não ter feito referência direta ao setor rural. Na ocasião, a presidente disse que "os enfrentamentos só serviram para dividir o povo" e convocou "todos os argentinos, sem distinção, a debater e discutir em um marco democrático". No entanto, o governo disse que não conversaria com os dirigentes rurais enquanto os protestos fossem mantidos.  Economia Por causa do conflito, a inflação disparou e cresceram as incertezas sobre o futuro da economia argentina, embora o país conte com bons números macro-econômicos. A classe média portenha, irritada com a alta inflacionária - e em apoio aos ruralistas - saiu (pela primeira vez desde 2002) às ruas para realizar panelaços de protesto. Neste cenário de crescente insatisfação e do surgimento dos primeiros e inéditos sinais de debilidade do outrora invicto casal presidencial, a imagem de Cristina despencou de forma acelerada. Segundo o pesquisador de opinião pública, Jorge Giacobbe, a aprovação popular de Cristina, que era de 42% em dezembro, quando tomou posse, caiu para atuais 23%. Falcões O conflito também intensificou as brigas internas do gabinete Cristina. O primeiro locaute, realizado em março (de 21 dias de duração) custou o posto ao então Ministro da Economia, Martín Lousteau (autor das medidas tributárias abominadas pelos ruralistas). Isso implicou em uma perda de poder do Chefe do Gabinete de Ministros, Alberto Fernández, classificado como uma das "pombas" do governo Cristina. Enquanto Fernández perdia poder, seu rival no gabinete, o Ministro de Planejamento Federal e Obras, Julio De Vido, aumentou sua influência. De Vido é classificado como um dos "falcões" do governo Cristina.O conflito com os ruralistas também colocou à pique a ambição da presidente Cristina de anunciar no dia 25 de maio (uma das duas datas nacionais da Argentina) um amplo plano de metas econômicas que seria pactado com os industriais, sindicatos e o setor agropecuário. Os sinais de debilidade também estimularam outros setores a pressionar a administração Cristina. Esse é o caso do sindicato dos metalúrgicos, que exige um aumento salarial de 30% para este ano, substancialmente superior aos 19% obtidos pela máxima autoridade sindical do país, a Confederação Geral do Trabalho (CGT). (com Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo e BBC Brasil)

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